Arquivo do dia: abril 18, 2013

Miopia

Míope é a vida!

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Viciada em inícios

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Enquanto a noite cai, piedosa, eu me sento e agradeço. Existe mais um universo prestes a ser desvendado, aqui. Os seres, exaustos de futebol ou de cachaça, já hibernam em felicidade ou tristeza: e pouco é importante o resultado do jogo. O que basta é o prazer de ser testemunha.

A janela já não traz o balbuciar inerente à uma cidade literária. E os deuses não abençoam o vinho, vindo de tão longe para apaziguar a sede dos silêncios. Tudo conspira pela folha em branco, pelo raiar soturno, útero sem fonte. No entanto, continuo a acreditar que a madrugada carrega em si a fantástica capacidade de rejuvenescer-me. Que todo vazio comporta as inspirações mais inacreditáveis. E que os espíritos de luz tornam-se aliados nesta encruzilhada.

Não é porque a vida apresenta-se mais calma, nesta hora de zelo, que os princípios sejam fetais, sorumbáticos. Ao revés dos contos de fada, a narrativa divina está mais alerta, nos segundos que antecedem às auroras.  Ouço um poema, recitado por outrem: reclamo! Prefiro a voz de meus próprios olhos, a entonar as sílabas em plenitude.

Coloco-me à disposição das páginas inauguradas: ao relinchar infantil dos prazeres sem dono, à insustentável incompreensão que precede o toque das línguas. E respiro uma galáxia, insone, ao iniciar uma leitura.

Corruptível aos começos, assim me defino. Com profundo horror às conclusões. Estou adicta, desde o meu nascimento, a esperar amanheceres como companhia. Roubo, com pitadas de psicopatia, quaisquer infâncias que me rodeiem, desde que sejam puras, imaculadas, pequenas. Aposso-me, também,  de tuas memórias remotas, até o pertencimento sanguíneo, podendo beber de teus inícios sem pudor.

Enalteço os versos prematuros, dignos de rasuras e incompletudes. Acaricio as rubras faces, embevecidas de quimeras. Perdoo os desperdícios, designados às renovações. Doou-me às manhãs tristes de abril, quando o sol não pode estancar a gélida ternura dos outonos. Porque o agora me invade e me determina a existir, num cálido pacto de nunca vivenciar o eterno retorno.

Ao tilintar de uma rolha, em harmonia com o oxigênio, estou eu. Na ruptura submersa que insiste a tinta, frente à folha. Em suntuosos devaneios de mar, em dia de ressaca. Na saliva em comunhão. No perdão de amar um ser humano o qual jamais ouvirei a voz. Nas surpresas inexoráveis do destino, ainda que cravadas na palma da mão. Lá podes me encontrar.

É por isso que sinto saudades. Presa aos instantes de estreia. Reconheço-me em ti, sábio poeta, cujo nome corrobora a beleza de ferir. Entrego-me, contigo, à mansidão límpida das estrelas ofuscadas. Ao amor que se foi. Ao amor que não tive. Ao amor que inventei.

Economizo gestos e palavras, em tua presença. Ignóbil sonhadora de rabos de cometas. Já não preciso dos teus dizeres ao pé do ouvido. Indecifrável e querido mestre, sou tua. Grávida de esperanças. Viciada em inícios, amado Vinícius.

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