O poeta é redondo!

O redondo é, com certeza, de inestimável valor para a compreensão de uma imagem poética. Sem medo de parecer óbvia, nesta afirmação.Toda imagem poética é redonda, basta-se por si mesma, se completa. A concepção de redondeza elimina os pontos de partida e os pontos de chegada. Elimina o acabamento do ser poético.

A redondeza da imagem é abertura de possibilidades novas, a qualquer momento. Cada vez que um leitor é tocado por uma imagem, ela adquire novas expressões de ser, ultrapassando o tempo e o espaço.

O redondo é a forma do devaneio do universo. Nada mais claro para compreender a imagem poética, do que colocá-la no plano dos universos. Pois as poesias são imensos universos de sentidos.

Outro aspecto importante da imagem redonda é a capacidade de abrigar o vazio. Muitas vezes há tão somente o contorno, o que dá forma. O centro é sempre vazio, sempre o nada. A imagem sempre nos fala do nada e, portanto, das inesgotáveis possibilidades de ser. Pode-se enxergar a imagem da redondeza plena como uma imagem de concentração. O redondo é sempre um centro concentrado, permeado pela profundidade:

“E, para um sonhador de palavras, que paz na palavra redondo! Como ela arredonda serenamente a boca, os lábios, o ser do alento! Pois isso também deve ser dito por um filósofo que acredita na substância poética da palavra. E eu alegria, professoral, que alegria sonora começar a aula de metafísica, rompendo com todos os estar-aí, dizendo: “Das Dasein ist rund!” O ser é redondo. E depois esperar que o ressoar do trovão dogmático se acalme sobre os discípulos extasiados.” (Bachelard 2000, p. 241)

Abobadar os devaneios. Permitir-se enxergar os acontecimentos e as poesias como seres extremamente redondos. O acontecimento redondo torna o passado redondo e a vida redonda. Estarão, dessa forma, sempre dispostos a serem acometidos pela novidade, pelo novo sentido, pelo inesperado.

O poeta é privilegiado pela redondeza plena, pela capacidade de espantar-se a qualquer momento com o inexplicável mistério de todas as coisas que estão sempre em aberto. O poeta, este escravo da verdade, sabe melhor do que ninguém que o desvelamento de algo implica em um novo encobrimento. O poeta sabe que não existem axiomas. O poeta é redondo.

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