O tempo não derramado

E agradeço a esse alguém por não ter rasgado a minha carta: cada um de nós morre um pouco quando alguém, na distância e no tempo, rasga alguma carta nossa, e não tem esse gesto de deixá-la em algum canto, essa carta que perdeu todo o sentido, mas que foi um instante de ternura, de tristeza, de desejo, de amizade, de vida — essa carta que não diz mais nada e apenas tem força ainda para dar uma pequena e absurda pena de rasgá-la.”  Rubem Braga  

A materialidade de mim que reside na casa dos meus pais se transformou em uma caixa de papelão repleta de  lembranças encruzilhadas em nostálgicas reminiscências. Dói-me abaixar-me diante desses passados longínquos e obscuros, tão distantes de quem sou agora.

O instante da faxina, além de salientar os ácaros permanentes do passado, traz a insustentável dor de me livrar desses breves fragmentos enrijecidos pelo tempo, aflorados em inoportunidades.

Releio as amarelecidas declarações de amigos que não vejo mais. Deleito-me com a doçura dos primeiros namorados. Inebrio-me com as mínimas promessas de futuro que abrigam os corações de exímias sonhadoras.

De repente, sinto a profunda saudade de ser amada pelas horas que custei àquelas cartas coloridas, dolorosas, desenhadas em nanquim, fatigadas de felicidade ou desesperadas pelo abandono de um inverno inglês.

Rio-me dos erros que invadem a caligrafia difícil, obstáculo da infância. Falho em rebobinar alguns sentimentos nublados, ilegíveis a olho nu. Depois, entrego-me à estranha liberdade de engolir as verdades axiomáticas, desacompanhadas intérpretes da jornada.

Ah, esses dizeres juvenis merecem ser sepultados. Desfaço-me de milhares de folhas. Rasgo-as sem pudor porque, aqui, morando nesta pele, todos os momentos que me escreveram foram em mim publicados.

Resgato uma mala empoeirada para abrigar as cartas que, por algum motivo, ainda não me aconteceram. Letras da avó precocemente morta, sonhos irrealizáveis, nostalgias de amor…

Vou guardar-me mais um pouquinho, engrandecendo-me em sonhos que a vida ainda há de contar.

Levo, paciente, alguns quilos de coragem que me tragam a velhice em imensidão luminosa. Estilhaços meus que se extingam, pouco a pouco, na lucidez de suas concretudes. Com as vozes trêmulas de poesia, descansadas da sobriedade cronológica. Rasguem-se em solilóquios, em ruínas, em escuros. Mas fiquem um pouco mais, enquanto tenho esses verbos em dúvidas.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Crônica, Textos meus

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s