O insight do Artista

“Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo”. João Guimarães Rosa

Fui assistir – em uma mistura de medo e curiosidade – ao filme “O Artista”, do diretor francês Michel Hazanavicius. O medo consistia em não suportar por duas longas horas um filme inteiramente mudo e em P&B. A curiosidade era ainda mais óbvia: indicado a onze Oscars e vencedor de sete BAFTAs, “O Artista” vem sendo consagrado pelo público e pela crítica cinematográfica ao longo dos últimos dias de uma maneira assombrosa.

Com uma trilha sonora impecável, assinada por Ludovic Bourcesobre, a história nos relembra as estrelas notáveis de Fred Astaire e Gene Kelly, com um toque hitchockiano fantástico. É maravilhoso ver como as expressões se sobrepõem às falas e aos músculos, nesta saudosa homenagem ao cinema hollywoodiano.

“O Artista” nos revela as faces escondidas da nossa sensibilidade, ofertando-nos inúmeras reflexões acerca dos trilhos que a indústria quer seguir: precisamos mesmo da terceira dimensão para nos entreter com a sétima arte? Mais vale um rosto bonito do que um grande ator para se tornar um sucesso de bilheteria? Precisamos de tantas explosões e efeitos especiais para permanecermos atônitos em frente ao grande ecrã?

Contudo, embora essas questões sejam importantíssimas no incansável debate sobre o filme, outra interrogativa surgiu-me como insight. George Valentin, o protagonista, é um brilhante e carismático ator do cinema mudo na década de 20.  Sua segurança e competência – características incontestáveis do sucesso – atreladas ao conservadorismo típico de quem está no auge, impedem-no de vislumbrar o futuro. A mudez está com os dias contados.

Sua insistência nos mostra o quão importante é termos um olhar atento ao amanhã. O quanto nossas vestes podem estar ultrapassadas no mundo corporativo, de uma hora para outra. Ah, como devemos escutar os sonhos oraculares que às vezes se comportam como pesadelos!

“O Artista”, além de grande e visionário, ensina-nos a respeitar o papel que a arte exerce sobre a nossa própria narrativa. A gestão de nossas carreiras é uma das esquinas que nos colocam à prova: serei eu o protagonista de minha existência ou a vitima coisificada, traída pelos destinos? É imprescindível refazermo-nos, dia após dia, nesse universo acelerado que é capaz de esmagar nossos sonhos profissionais. Insucessos carregam também o sentido da jornada. A alguns passos da ruína, iminente, devemos sentir o vento que traz a liberdade dos fracassos. A vida imita a arte.

Anúncios

2 Comentários

Arquivado em Textos meus

2 Respostas para “O insight do Artista

  1. Bacana, Mariana. Assisti esta semana ao filme com a mesma sensação de curiosidade e medo. Mas logo fui positivamente surpreendido por esse belíssimo filme.

    “A arte de viver.”

    Teu insight foi perfeito.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s