Onírico desatino

“Mas, quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro, brota depois…Pois então, o senhor me responda: amor assim pode vir do demo? Poderá?” João Guimarães Rosa – Grande Sertão Veredas

Acordou num sobressalto. Desassossegada das manhãs, temia estar mais uma vez atrasada para o viver. O coração pululava em intimidadas artérias. Um suor, mascarado em umidade, escondia o acontecimento delirante. E não houve uma consciência recobrada anterior ao pertencer dos impropérios sentidos que avassalavam os poros, ainda trôpegos de vinho e insônia.

Então havia existido. Em alguma esquina onde moram todos os desejos, ardia. Inútil, o convite, impensado devaneio. Por que, meu Deus, fui habitada por essa possibilidade? Por que me vem agora essa terrível clarividência daquilo que não sou capaz de compreender?

A ira, cerebral, era mínima. Sempre lhe foi inelutável sustentar as estribeiras do pensamento, frente à imprevista tempestade oracular. Defendida de si e para si, percorreu a cidade, passos longos. Suspensos, os minutos não a auxiliavam no entendimento da fantasia. Não quero o amor a me rondar, agora! Que descaso é esse, descabido inconsciente? Que audácia é essa de tingir meu sonho em retalhos escarlates?!

A sucessão das horas não foi apaziguando o reverberar das cordas. Não trouxe a desligada calmaria do ouvido que desiste de se atentar à insuportável presença do tempo. Absolutamente tudo se concretizou, ali. Instante onde a quimera entrelaça o inadmissível – e o concebe caminho. Num repouso em que todos os corpos estão nus.

O ímpeto de telefonar a ele e dizer a loucura repercutida em sua cabeça fora maior que o entregar-se ao incabível. Nas profundezas de sua racionalidade, ela precisava pôr fim àquelas indizíveis previsões.

E ele? Sem ter menor noção do que se tratava, foi ao encontro da amiga, na tarde ensolarada que cobria as outonais nuances. E ambos vagaram pelas ruas: ela com a culpa ridícula do sonho; ele com a ignorância dos infantes.

A tarde, imune, encolheu-se, vestindo-os com o pôr-do-sol à beira da esplanada. Sincronizou a paisagem à memória dos clichês. Estupefata, ela respirava o alívio de todos os sonhadores desavisados. A esquálida fumaça transparente das esperas ia, pouco a pouco, deixando seus domínios. O intraduzível que os silenciava, no auge crepuscular do óbvio, abandonava o pesado recinto. Ah! – suspirou – como é bom me desafogar desses dilúvios! O conforto de ter as rédeas da razão em punho! Nada existiu. Nada existiu.

Cambaleante, alta noite se inaugurava vagarosa, com a preguiça que nortea todo esplendor. Uma lucidez indigna da miopia estrelava os olhos, antes aflitos, daquela moça. Os anseios – exaustivos para quem já teve uma imaginação em chamas – em mudez. Sonhos pueris, que navegam a vigília e o latente, enfim superados. Nada aconteceu.

O dia a seguir, haveria o encetar da ressaca que se cala? A extenuante inquisição das rotinas? Nada! A jornada já não seria a mesma. No amor ou ideia de amor, na lembrança iludida ou na sua oposta desaventura. É.

Ele também compreendeu: ao buscá-la, após o expediente, não decoraria dizeres. Tudo aquilo que não existia já estava adormecido em sua carne. A intempérie não jazia, hospedava-o. Preambular àquele passeio.

A relação mudou. E o porquê não o interessava. Nos sutis tintilares que eram despertos, os sorrisos escaldantes submergiam seu rosto claro.

Surgido o oportuno momento, apenas invocaria a ancestral originalidade. Afinal: viver se enquadra, milimetricamente, no sonhar?

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