“Tudo o que não invento é falso.”

Manoel de Barros in Memórias Inventadas

CASO DE AMOR

Uma estrada é deserta por dois motivos: por abandono ou por desprezo.

Esta que eu ando nela agora é por abandono. Chega que os espinheiros

a estão abafando pelas margens. Esta estrada melhora muito de eu ir

sozinho nela. Eu ando por aqui desde pequeno. e sinto que ela bota sentido

em mim. Eu acho que ela manja que eu fui para a escola e estou voltando

agora para revê-la. Ela não tem indiferença pelo meu passado. Eu sinto

mesmo que ela me reconhece agora, tantos anos depois. Eu sinto que ela

melhora de eu ir sozinho sobre seu corpo. De minha parte eu achei ela bem

acabadinha. Sobre suas pedras agora raramente um cavalo passeia. E quando

vem um, ela o segura com carinho. Eu sinto mesmo hoje que a estrada é

carente de pessoas e de bichos. Emas passavam sempre por ela

esvoaçantes. Bando de caititus a atravessavam para ir ao rio do outro lado.

Eu estou imaginando que a estrada pensa que eu também sou como ela:

um coisa bem esquecida. Pode ser. Nem cachorro passa mais por nós.

Mas eu ensino para ela como se deve comportar na solidão. Eu falo:

deixe deixe meu amor, tudo vai acabar. Numa boa: a gente vai

desaparecendo igual quando carlitos vai desaparecendo

no fim de uma estrada…

Deixe, deixe, meu amor.

SOBRE IMPORTÂNCIAS

Um fotógrafo-artista me disse outra vez: veja que pingo de sol no couro de um lagarto é para nós mais importante do que o sol inteiro no corpo do mar. Falou mais: que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem com barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós. Assim um passarinho nas mãos de uma criança é mais importante para ela do que a Cordilheira dos Andes. Que um osso é mais importante para o cachorro do que uma pedra de diamante. E um dente de macaco da era terciária é mais importante para os arqueólogos do que a Torre Eifel. (Veja que só um dente de macaco!) Que uma boneca de trapos que abre e fecha os olhinhos azuis nas mãos de uma criança é mais importante para ela do que o Empire State Building. Que o cu de uma formiga é mais importante para o poeta do que uma Usina Nuclear. Sem precisar medir o ânus da formiga.  Que o canto das águas e das rãs nas pedras é mais importante para os músicos do que os ruídos dos motores da Fórmula 1. Há um desagero em mim de aceitar essas medidas. Porém não sei se isso é um defeito do olho ou da razão. Se é defeito da alma ou do corpo. Se fizerem algum exame mental em mim por tais julgamentos, vão encontrar que eu gosto mais de conversar sobre restos de comida com as moscas do que com homens doutos.

Anúncios

4 Comentários

Arquivado em Outros poetas

4 Respostas para ““Tudo o que não invento é falso.”

  1. miriam

    Dadá
    que seria de nós com tantos tsunamis e sem nenhum Manoel de Barros que nos mostrasse a importância das coisas ínfimas. Para nós o cu de uma formiga é mais importante que uma Usina nucleqaar e também não causa tantos danos, aliás dano nenhum a ninguém. Que vivam os poetas paraa salvar o fim dos tempos. bjos. Flor

    Curtir

  2. Pingback: Sob(re) uma Garrafa « A Garota e Seus Livros

  3. Anônimo

    https://www.facebook.com/tudoquenaoInventoefalso

    se puder apareça!
    estamos em cartaz no CCBB RJ.
    sábados e domingos as 15h.
    um beijo

    Curtir

  4. Sou como a água você a bica,
    Por ela caminho e busco sair,
    Antes de por ela entrar,
    Começo no rio se a chuva cair.

    Sou como a cobra pelo caminho,
    E você uma gruta onde busco me aquecer,
    Quem sou? parte carne, parte reprodutor,
    Sou a esperança de qualquer mulher.

    Faço sexo, faço gente, faço amor,
    Faço acontecer basta querer começar,
    Magro não sou nada, o leite eu não vendo, eu dou,
    Para em cada mês te engordar.

    Durante esse tempo, me mantenho duro,
    Para nos fazer alegre ficar,
    Em nove meses te deixo satisfeita,
    Quem sou? tente adivinhar.

    Eu te garanto muita alegria,
    A cada quinze minuto te faço feliz ficar,
    A vida inteira me guardo em você,
    Basta a minha força outra vez voltar.

    Do poeta: Paulo de Andrade

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s