De quem eu vim


Ladainha

Miriam Portela in “O Continente Possuído”

Senhor, tende piedade

dos que têm no lugar do coração

uma pedra branca e fria.

Tende piedade dos sós

dos cegos e apolíticos

porque não crêem.

Tende piedade dos responsáveis

porque dormem fartos e não percebem.

Tende piedade dos loucos lúcidos

que são enjaulados e dos apenas lúcidos

incapazes de medir a extensão

de suas loucuras.

Tende piedade

dos que sentem frio

e cortam a carne

e sentem medo:

eles estão desarmados.

Tende piedade dos fortes e poderosos

porque não sabem sentir

e se cansam logo.

Dos que pensam em voz alta

e provocam pânico

e são condenados a um silêncio

anormal.

Tende piedade, Senhor

dos que têm pressa –

a esperança para eles é fugaz.

Piedade para os que se sentam

e permanecem estáticos –

o seu caminho é mais longo

do que imaginam.

Tende piedade dos violentos

porque neles a fragilidade é maior

e essa é a sua vergonha.

Tende piedade dos que mentem

e acreditam que estejam realizando

construções na mentira cotidiana.

Tende piedade de todos nós

Senhor

porque não somos pródigos

e necessitamos da tua

misericórdia.

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