Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim…

Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.

Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconsequente,
Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico,
Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,
Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,
De haver melhor em mim do que eu.

Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa,
Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores,
De haver falhado tudo como tropeçar no capacho,
De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas,
De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.

Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,
Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,
De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo —
A impressão de pão com manteiga e brinquedos
De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,
De uma boa-vontade para com a vida encostada de testa à janela,
Num ver chover com som lá fora
E não as lágrimas mortas de custar a engolir.

Baste, sim baste!  Sou eu mesmo, o trocado,
O emissário sem carta nem credenciais,
O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,
A quem tinem as campainhas da cabeça
Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.

Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.

Sou eu mesmo, que remédio!  …

Álvaro de Campos / Fernando Pessoa

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4 Comentários

Arquivado em Outros poetas

4 Respostas para “Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim…

  1. Mariana…quantas verdades sincopadas se alternam entre um bater e outro de meu coração apaixonado…quantas sílabas dissonantes fazendo coro ao ritmo alucinado das percepções…quanta verdade explícita sendo desnudada, como que dizendo: “- Deixe-me livre…deixe-me apenas ser o que sou…deixe-me livre ou eu mesma o enlouquecerei…até que me liberte através da sua loucura”…sou louco…sou louco…sou livre…e na loucura da minha liberdade enlouqueço o mundo a minha volta como se de verdades sincopadas o mundo fosse feito…sou livre…sou livre…sou louco…como se na liberdade da minha loucura houvesse alguma lógica compreensível a corações insensíveis…agora sei que na liberdade da minha loucura permito-me amar…sentir…surtar…e ser apenas o que sou…um louco livre da loucura da sua liberdade…livre da sua própria loucura…vivendo a liberdade de um amor louco…vivendo a loucura de um amor livre…apenas permitindo-se viver um louco…louco…livre amor…esperando que na liberdade desta loucura…faça-se a loucura de uma liberdade que aprisiona em correntes de um amor livre e louco…dois corações que se amam… loucamente…

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  2. Bruna

    Você sabe em qual livro está essa poema? Todo mundo publica e ninguém coloca o livro… Obrigada!

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    • Oi Bruna!
      Eu o tenho nas obras completas, não saberia dizer em qual outro está. Na verdade pouca coisa foi publicada do Pessoa em vida, por isso meu conselho é que você vá atrás das Obras Completas para não perder nada! Um abraço

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      • Bruna

        Obrigada, Mariana. A minha pergunta era também para ver quais outros poemas tinham sido publicados no mesmo livro, mais por uma questão de estudo meu – sobre o autor. Não consigo achar as divisões dos poemas dele! Obrigada mais uma vez e parabéns pelo blog! Abraços

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