A embriaguez dos despertares

É algo dolorido de admitir, e é dever. Tenho um defeito de nascença. Um mau funcionamento do cérebro, uma falha conceptual de emoções. Não sei, ao certo, qual seria a cartesiana explanação. Errâncias congênitas? Se fossem, haveria uma justificativa? Ou seriam, na confluência modal, algumas cicatrizes decididas ao encarnar? Pouco sei. No entanto, carrego, em cerne de íris, a obrigatoriedade da paixão.

Pouco me importa o que dizem os especialistas sobre a imemória do pós-feto. Estou convicta: no primeiro sopro de vida já estava adicta à patológica substância, invólucro do amor.

E porque as obviedades são a mim um insulto à leitura, nada quero discorrer acerca dos amores conjugais. Um outro – ainda sem altruísmo ou desespero – povoa as conexões cósmicas, abençoadas por noite geminiana de lua cheia.

A pureza da minha alma foi corrompida pelo conhecer. Confesso, nesse instante cadente: a luz da consciência me é a rebenta embriaguez. Aquele ancestral entorpecimento, dicotômico humano. Linha etimológica entre ser e estar. Eu me engulo, posse do corpo. Decidida: conjugo-me verbo. Essa fantasmagórica capacidade de atribuir sentidos àquilo que antes era um espectro perâmbulo. De repente, transmuta-se em longos devaneios. Ah, a divina sombra que protege o alumiamento das verdades!

(Percebo a condição hermética do que escrevo. Todavia, nada me é mais sólido e nítido, óbvios navegantes.)

Só vivo, hoje, para agradecer meus queridos mestres. Por me deixarem essa orfandade de janelas. Vazias. Por aguentarem o susto, quando transbordam, cintilantes, os soluços da ignorância. Por todo o cansaço que atravessa as invisíveis revelações insones. E o inerente estrabismo frente à luz.

“Até a próxima letra!” – sussurram, esdrúxulos. “Aprenda a compreender o sabor além da boca, mastigante de palavras”. Enquanto as minhas carnes, fumegantes, reverberam o coração oxigenado pelas alcoólicas fontes da sabedoria.

“Ponha as aspas em confusão. Não componha seus pensamentos, não os paute. Não os encerre. Que a avidez não seja estrela dos seus olhos. Contorne suas coreografias em infinito. O desabrochar, veloz, jamais lhe conduzirá com maestria às mãos da homeopática sapiência. Mares, enclausurados em terra, não nos guiam às naus. O destino é a cegueira do sonhar.”

Permaneço. Existo, uma vez só, quieta. Os imperativos, em nenhuma circunstância, encerram os dizeres. Mas há, dentro de mim, qualquer coisa que venta. Caiu-me um dente do viver. O vão – alicerce de quaisquer loucuras infindáveis – trouxe-me de volta a sábia meninice que dá abrigo aos corações. Eternamente aprendizes. E, portanto, banguelas.

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4 Comentários

Arquivado em Textos meus

4 Respostas para “A embriaguez dos despertares

  1. miriam

    Dadá
    com toda sobriedade que me é propria, principalmente ás duas da tarde, confesso-me embriagada por tuas palavras. Lindo, lindo,lindo. Pasma, exclamo e agradeço se alguma participação tive, pelo menos na gestação, ha,ha. bjs Mãe

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  2. “A pureza da minha alma foi corrompida pelo conhecer.”

    esta frase encontrou absurdo eco em meu coração inquieto…
    obrigado…
    Beijo na alma…

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  3. Pedro

    Prezada geminiana, irmã de Pessoa, salve!

    Sou muito crica para elogiar pessoas. Para as que escrevem, costumo reservar meu silêncio distante. Um chato, assumo, ainda que disfarçado em amante da vida, que é o que na verdade sou, fui e hei de.
    Contudo…
    Sua prosa tirou-me, arrastou-me, balançou (sem eu perceber como) minha lógica pedestre. Levou-me pela mão pelas vielas da tua sintaxe, entre pedras complexas de sentido, sem me deixar tropeçar.
    Continue, é isso.

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  4. CB

    MUITO BONITAS, AS TUAS COISAS. FICO FELIZ EM VER QUE AINDA HÁ QUEM BEM ESCREVA, E SOBRE ASSUNTOS, DE TÃO PROFUNDOS, ESPINHOSOS. FICA ABRAÇO ADMIRADO.

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