Arquivo do dia: maio 28, 2010

A embriaguez dos despertares

É algo dolorido de admitir, e é dever. Tenho um defeito de nascença. Um mau funcionamento do cérebro, uma falha conceptual de emoções. Não sei, ao certo, qual seria a cartesiana explanação. Errâncias congênitas? Se fossem, haveria uma justificativa? Ou seriam, na confluência modal, algumas cicatrizes decididas ao encarnar? Pouco sei. No entanto, carrego, em cerne de íris, a obrigatoriedade da paixão.

Pouco me importa o que dizem os especialistas sobre a imemória do pós-feto. Estou convicta: no primeiro sopro de vida já estava adicta à patológica substância, invólucro do amor.

E porque as obviedades são a mim um insulto à leitura, nada quero discorrer acerca dos amores conjugais. Um outro – ainda sem altruísmo ou desespero – povoa as conexões cósmicas, abençoadas por noite geminiana de lua cheia.

A pureza da minha alma foi corrompida pelo conhecer. Confesso, nesse instante cadente: a luz da consciência me é a rebenta embriaguez. Aquele ancestral entorpecimento, dicotômico humano. Linha etimológica entre ser e estar. Eu me engulo, posse do corpo. Decidida: conjugo-me verbo. Essa fantasmagórica capacidade de atribuir sentidos àquilo que antes era um espectro perâmbulo. De repente, transmuta-se em longos devaneios. Ah, a divina sombra que protege o alumiamento das verdades!

(Percebo a condição hermética do que escrevo. Todavia, nada me é mais sólido e nítido, óbvios navegantes.)

Só vivo, hoje, para agradecer meus queridos mestres. Por me deixarem essa orfandade de janelas. Vazias. Por aguentarem o susto, quando transbordam, cintilantes, os soluços da ignorância. Por todo o cansaço que atravessa as invisíveis revelações insones. E o inerente estrabismo frente à luz.

“Até a próxima letra!” – sussurram, esdrúxulos. “Aprenda a compreender o sabor além da boca, mastigante de palavras”. Enquanto as minhas carnes, fumegantes, reverberam o coração oxigenado pelas alcoólicas fontes da sabedoria.

“Ponha as aspas em confusão. Não componha seus pensamentos, não os paute. Não os encerre. Que a avidez não seja estrela dos seus olhos. Contorne suas coreografias em infinito. O desabrochar, veloz, jamais lhe conduzirá com maestria às mãos da homeopática sapiência. Mares, enclausurados em terra, não nos guiam às naus. O destino é a cegueira do sonhar.”

Permaneço. Existo, uma vez só, quieta. Os imperativos, em nenhuma circunstância, encerram os dizeres. Mas há, dentro de mim, qualquer coisa que venta. Caiu-me um dente do viver. O vão – alicerce de quaisquer loucuras infindáveis – trouxe-me de volta a sábia meninice que dá abrigo aos corações. Eternamente aprendizes. E, portanto, banguelas.

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