Arquivo do dia: maio 21, 2010

Semeando Constelações

Já se encontrava farta de tudo aquilo que vivera: as conversas enfadonhas com as amigas, a rotina tediosa do trabalho, os forjados jantares familiares. Sua existência se enrolara em não mais sentir. Porque as dores são pássaros ininterruptos do cantar.

Abrigara a estranheza solitária de traduzir o mundo em versos. E nada lhe era mais assustador que aquela sina. A poesia não vem para salvar a humanidade de anseios suicidas, mas para relembrar as mortes diárias da carne, frente ao espírito.

Perguntava a si mesma se havia outra saída que não envolvesse pulsos exangues ou entrada no sanatório. Entressonhava, louca, as possíveis resoluções para a sua grotesca enfermidade. Quem se olha em poesia não possui lugar no planeta autoajuda. Tampouco é permitido sair ilesa das convencionalidades sociais.

Havia, sobretudo, um otimismo tolo que a seguia nos despertares. E ela ia, por masoquismo, tomando duras punhaladas de mesmice, durante manhãs inconfessáveis. Engolia doses e mais doses entrecortadas de ignorância. Pensava-se mártir, naquela altura, consentindo estigmas em prol de algo que lhe era maior, mais forte. Divindades do existir, pensava. O ônus que se paga pelos jardins do sentimento.

Os meses seguintes foram levando a sua lucidez. Os lábios clamavam só por cálices encarnados de vinho. O convívio com seres de carne e osso fora deteriorado por inteiro. Ela desvanecia, dia após dia, da sua condição irrisória. Ao mesmo tempo, suas palavras também iam perdendo potências. Esvaziavam-se em rascunhos mesquinhos. Todo segundo transfigurava-se em logomaquias.

A mulher, contudo, tinha uma sabedoria infantil de respostas. Aceitava o implacável prenúncio dos parágrafos. As imagens insurgiam como o perfume de damas-da-noite. A concretização, todavia, esperneava. Ensandecida por cheiros de pele. Insubordinada às inúteis tentativas do isolamento.

Apenas em confluência com outro ser humano é permitido sonhar. A inadequação – natural – não pode tocar o absoluto. Nenhuma ilha alimenta-se de oceanos. Somos, ainda, reféns de cumplicidades.

Como lhe irritava saber de sua condição! Obrigada a engajar-se, outra vez, em um universo que a havia deitado fora. E agora – para que seus dizeres atingissem o imperecível – abdicaria de sua excentricidade gloriosa. Tornara-se caçadora de convergências humanas.

A tarefa, dificílima, rendeu-lhe quilos de maquiagem e roupas importadas. Contudo, por mais esforços que empreendesse, mais fracassos colecionava. A busca, indispensável para a sua literatura, transformou-se em fardo intransponível.

Os assombros poéticos, concomitantemente, afligiam-na nos sonhos e nas horas de vigília. Os dedos, exaustos, renuíam aos seus apelos. As inspirações rebelavam-se, pungentes.  E a aversão aos seres mundanos se agravava. O esforço convertia-se em repúdio. Atrofia.

Empertigada, decidiu que a morte desenhava a melhor de todas as ideias. Não a vislumbrava em covardia, mas em intrepidez absoluta de quem havia tentado.  Às vesperas de dar cabo ao sofrimento indizível que tece todas as escuridões, aceitou a companhia de um velho conhecido. Convidou-o para passar a madrugada com ela. Ele a endereçou um esquisito olhar que dialogava – indecente – às suas doçuras moribundas.

O autor, nitidamente, nada compreendia dos seus dizeres esquizofrênicos. Não traduzia suas falas com borboletas, nem relutava diante das suas asperezas. Entretanto, ele bebia, voraz, tudo aquilo que ela havia refletido. Ele apenas a confortava com palavras. Mesmo escritas, era uma voz humana que inundava os sorrisos da moça. Às vezes os livros são mais velozes do que estrelas cadentes.  E a noite pode repousar seu sono no monólogo dela.

Vergonhosa de sentir tais obviedades, ela conseguiu suspirar em calmaria. Grávida de périplos e roteiros que fantasiou para os novos personagens. O que se seguiu, foi a descoberta mais latente de sua vida: ao incutir a repartição, sabe-se plenitude. Esse amor que mantemos pelos seres inexistentes. Com todos os seus truísmos literários, assentia mais uma vitória. Um verdadeiro semeador de constelações.

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Os passos no porão, lembra da assombração e das almas com perfume de jasmim…

Maninha – Chico Buarque (gênio!)

Se lembra da fogueira
Se lembra dos balões
Se lembra dos luares dos sertões
A roupa no varal, feriado nacional
E as estrelas salpicadas nas canções
Se lembra quando toda modinha falava de amor
pois nunca mais cantei, oh maninha
Depois que ele chegou
Se lembra da jaqueira
A fruta no capim
Do sonho que você contou pra mim

Os passos no porão, lembra da assombração
E das almas com perfume de jasmim
Se lembra do jardim, oh maninha
Coberto de flor
Pois hoje só dá erva daninha
No chão que ele pisou

Se lembra do futuro
Que a gente combinou
Eu era tão criança e ainda sou
Querendo acreditar que o dia vai raiar
Só porque uma cantiga anunciou
Mas não me deixe assim, tão sozinha
A me torturar

Que um dia ele vai embora, maninha
Prá nunca mais voltar…

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