O Blog e o Espetáculo

O cadeado é um signo do segredo. Ele tranca, silenciosamente, o recôndito entre as páginas do diário. As confissões mais cruas, a nudez dos sentimentos, a brutalidade dos defeitos. Tudo estava protegido pelas chaves interiores do coração escritor. Durante séculos e séculos foi assim que o protagonista-autor lidou com suas inefáveis verdades.

O íntimo, hoje em dia, abriu as portas ao mundo. O particular atinge quem estiver interessado na leitura. Com o surgimento dos blogs, no final da década de 90, a privacidade perdeu seus contornos. As paredes sucumbiram ao exibicionismo. Os núcleos sigilosos possuem as portas abertas. As algemas da clausura estão enferrujadas. E o palco está inteiramente iluminado. Basta saber se haverá expectadores na plateia. Afinal, todos parecem estar mais preocupados com as suas próprias atuações.

Em pouquíssimos anos de existência – o que dificulta muito uma bibliografia minuciosa do assunto – a blogosfera cresceu em imensa escala. Acredita-se hoje que há cerca de 112 milhões de blogs em todo o mundo.

O que tantas pessoas podem ter a dizer? Será que existe uma distância tão grande assim entre nós? Precisamos manter vivos os pensamentos em procuras do google? “Já que não consigo verbalizar, eu te mando a página do meu blog!” A página do blog fala mais das pessoas do que elas próprias são capazes de expressar. Sendo assim, o blog é sempre uma resposta. Mas, afinal, quem é a pessoa que se contrói no blog? Por quais razões o secreto está brutalmente escancarado em rede mundial?

Debord, em 1967, criou o conceito de Sociedade do Espetáculo. Quase trinta anos antes do surgimento dos diários virtuais, ele vislumbrou desdobramentos inacreditáveis que o mundo iria manifestar.

Recorrer a ele para analisar as marcas existentes nas páginas pessoais é quase instantâneo. Afinal de contas, a construção de um blog com o objetivo de desnudar a intimidade é um sintoma do narcisismo desvairado que enlouqueceu a todos nós:

Não se pode contrapor abstratamente o espetáculo à atividade social efetiva; este desdobramento está ele próprio desdobrado. O espetáculo que inverte o real é produzido de forma que a realidade vivida acaba materialmente invadida pela contemplação do espetáculo, refazendo em si mesma a ordem espetacular pela adesão positiva. A realidade objetiva está presente nos dois lados. O alvo é passar para o lado oposto: a realidade surge no espetáculo, e o espetáculo no real. Esta alienação recíproca é a essência e o sustento da sociedade existente.

Ao transpô-lo à virtualidade, percebe-se facilmente o que está implícito. Alimentando, dia após dia nossos blogs, podemos inventar nossas próprias vidas, transformando-as em peças muito mais interessantes. Nós, autores, não estamos realmente despidos perante nossos leitores, muito pelo contrário: fingimos a nueza que nos dê contornos mais harmoniosos. Corpos de mentira, espectros daquilo que acreditamos ser mais sedutor para quem nos lê.

As relações humanas tornaram-se um jogo de personas, de aparências mais belas. Os nossos defeitos puderam ser – a partir de fotos felizes e relatos fantasiosos – apagados. O teclado assume o papel de narrador da história que se gostaria de contar. A realidade é feia, cheia de cicatrizes e errâncias.

Debord invade as linhas, conduzindo-nos a aberturas do pensar ainda mais penosas que a existência da representação. Ele expõe que é o espetáculo o grande construtor da realidade, e que a sociedade se pauta naquilo que aparenta para conduzir suas doutrinas e verdades.

Estamos a negar a existência de nós mesmos por qual motivo? Por que nos é tão assustadora a incapacidade de sermos perfeitos? Por que o palco e a plateia clamam por tamanha energia? A incompletude é inerente ao humano. Talvez a fragilidade não deva ser negligenciada. A sombra é essência. Ora, o horrível negrume dos defeitos! Ele merece ser esquecido?

Da mesma maneira, essas falsas verdades estão em constantes modificações. A cada novo amanhecer, as descobertas são supérfluas e desprezíveis. Basta um piscar de olhos para que um comportamento saia de moda e outro tome seu lugar. A mídia eletrônica reformula as notícias de acordo com a apreciação do público. Nas palavras de Calvino:

Vivemos debaixo de uma chuva ininterrupta de imagens; os mais poderosos meios não fazem senão transformar o mundo em imagens e multiplicá-los através de uma fantasmagoria de jogos de espelhos: imagens que em grande parte estão privadas da necessidade interna que deveria caracterizar toda a imagem, como forma e significado, como força de impor à atenção, como riqueza de significados possíveis. Grande parte desta nuvem de imagens dissolve-se imediatamente, tal como os sonhos que não deixam marcas na memória; mas não se dissolve uma sensação de estranheza e mal-estar.

Porque essa sensação de estranheza fica sempre em nós? O estrangeiro nos pertence? Por que tudo se dissolve com a mesma facilidade que cria a matéria? E o homem líquido é também paradoxal: deseja uma solidez de resposta. A humanidade que somos clama por raízes e segurança. Mesmo que o amanhã as apague. É só deletar o blog e o passado morreu. Facilmente se encontra uma imagem mais bonita que ilustre a irrealidade teatral. Afinal de contas, o que é a memória na sociedade espetacular?

Uma das contradições mais engraçadas que se pode encontrar, na análise de um blog pessoal, diz respeito à linguagem. Em sua maioria esmagadora, os artigos são de uma pobreza semântica inacreditável. Além das abreviações típicas do mundo virtual (vc; aki; kd; etc.), vemos uma infinidade de erros gramaticais e problemas ortográficos. Por que será que os atores principais dos blogs não têm esse tipo de preocupação? A língua está obsoleta? Uma imagem vale mesmo mais do que mil palavras? “Diga isso sem usar palavras”, diria Millôr Fernandes.

Ora, é claro que sim! Muito mais importante é estar vestido adequadamente, ter as unhas devidamente cortadas, os cabelos iluminados por cremes caros. A maneira de falar ou escrever é irrelevante, se o corpo está em forma. Em blogs pessoais, mais vale que o autor seja fotogênico, que tenha bons vídeos, que saiba entreter seus leitores. Ele está, então, anos luz à frente de um autor preocupado com as miudezas da escrita.

Somos, assim, vítimas e protagonistas do espetáculo. Escolhemos livros pela beleza das capas. Acreditamos nos programas televisivos como se realmente os jornalistas fossem seres desprovidos de opiniões e tendências. A nossa avidez por novidades é incalculável. E o blog não é diferente disso tudo: é apenas mais uma triste fotografia do planeta, na era pós-moderna.

Será que os pretensos escritores dos blogs pessoais estão fartos de não pertencer ao nefário espetáculo que é o mundo? E esse sentimento de infelicidade, de ter apenas uma vida normal pode enfim ser aniquilado, com postagens megalômanas?

Contudo, seria imensamente triste se existisse uma homogeneidade nesse universo, se toda e qualquer página possuísse as mesmas intenções. Nem só de figurantes fantasiosos vive a blogosfera. Nem todos os autores gostam de se expor deliberadamente. Não é porque o espetáculo tomou conta do mundo que não se pode tirar proveito disso.

A comunicação virtual dá espaço para pessoas que sonham em publicar seus livros. Infelizmente, as editoras estão mais interessadas nas vendas do que na qualidade dos textos. É muito provável que sejamos privados de grandes escritores, todos os dias, pela falta de competência do mercado editorial.

Claramente não é possível afirmar que os donos de blogs literários sejam mais evoluídos que os outros, nem que superem a sociedade espetacular. Todo autor precisa do público para existir. No entanto, o público não pode ser regente do autor: quem escreve deve ser maestro de si mesmo, dir-nos-á Nietzsche:

O pensador não necessita da aprovação e dos aplausos, desde que esteja seguro de seus próprios aplausos: desses não pode prescindir. Existirão pessoas que dispensam esta ou aquela espécie de aprovação? Duvido; e mesmo dos mais sábios dizia Tácito, que não era nenhum difamador de homens sábios: “ainda para os sábios o desejo de glória é o último que desistem” – o que nele significa: nunca.

A imensa diferença entre um blog com vontade de ser livro e um blog pessoal é o conteúdo. Um deles assiste ao espetáculo e sucumbe às montras. Conta-nos histórias privadas sem critérios pré-definidos. Expõe suas entranhas na rede. Espera pelo aplauso. Utiliza-se de um linguajar pobre. Desabafa, exibe e destranca os velhos cadeados do diário.

Os blogs literários não estão imunes ao palco. Pelo contrário, eles aproveitam-se dessa enorme vitrine que é a rede para divulgar seus trabalhos, quase como um curriculum vitae.

Temos, por fim, duas verdades inexoráveis. O formato de blog vai se multiplicar cada vez mais, até mesmo como recurso jornalístico. E o palco irá permanecer aceso, gigante, louco por plateias. Cabe a cada um de nós utilizá-lo como janela para apreciações mais profundas, mais pautadas em conteúdo.

Se há nos homens a consciência do Espetáculo, fica muito mais fácil avaliar quando somos engolidos pelo jogo narcísico. E não se pode agir com pessimismo, neste caso. Devemos iluminar o lado bom. Quantos músicos, quantos escritores, quantos pintores nossos olhos poderão conhecer, com a democracia virtual? A ideia de que a nossa sociedade é a primeira capaz de superar a ditadura dos meios artísticos é maravilhosa. Eu também sonhei em ser um livro. Utilizei esse pequeno espaço para alcançar o tão esperado papel. E repousarei meu epitáfio no interior da livraria.

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5 Comentários

Arquivado em Textos meus

5 Respostas para “O Blog e o Espetáculo

  1. Felícia

    Como sempre, amei.
    E tem um pouco da nossa conversa de ontem…?!

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  2. mãe

    Quanto mais desnudos pensamos estar, mais véus nos encobrem. E eu que nunca me despi em frente aos espelhos, não entendo esse despudor.
    filha, seu texto, como sempre é lindo, é verdadeiro e…aterrador porque é real. bjs Mãe

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  3. caio marcelo

    Realmente isso é uma realidade, infelizmente poucas pessoas têm essa visão.A mídia e a sociedade não querem temos uma visão crítica ,eles querem nos alienar.
    Outra coisa que tenho observado que tem muita gente talentosa nesse Brasil mais não tem oportunidade usam os blogs como fonte de publicar os textos literários infelizmente poucas pessoas se interessam por isso a maioria gosta de coisas banais.
    Academia de Letras podia dar oportunidade para esses indivíduos.É isso são tantas coisas para abordar e reflitir .

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  4. Mari, teu texto mais uma vez me pegou. Obrigada. Saudades, Nati

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  5. Fiquei aqui pensando com meus botões em que tipo de blogueira eu sou. Existe o sonho do livro, existe a fantasia, existe a tendência de romantizar a vida sempre… (tendência não só da minha escrita).

    Ótima reflexão…

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