Arquivo do dia: fevereiro 11, 2010

A calhar…

Esse poema é o meu predileto de Pessoa. Conheço há anos e o recito como se estivesse declamando a minha própria alma. Tenho imensos ciúmes dele. Por muito tempo, quis aprisioná-lo a mim. Um segredo entre mim e o mestre. Pouquíssimos seres humanos o descobriram. Mesmo os portugueses mais apaixonados se surpreenderam quando o apresentei. Hoje, eu o deixo ir embora porque o amo. Na íntegra. Milimetricamente recuperado. Com todas as cousas em seus devidos lugares. 


Lembro-me bem do seu olhar.
Ele atravessa ainda a minha alma,
Como um risco de fogo na noite.
Lembro-me bem do seu olhar. O resto…
Sim o resto parece-se apenas com a vida.

Ontem, passei nas ruas como qualquer pessoa.
Olhei para as montras despreocupadamente
E não encontrei amigos com quem falar.
De repente vi que estava triste, mortalmente triste,
Tão triste que me pareceu que me seria impossível
Viver amanhã, não porque morresse ou me matasse,
Mas porque seria impossível viver amanhã e mais nada.

Fumo, sonho, recostado na poltrona.
Dói-me viver como uma posição incómoda.
Deve haver ilhas lá para o sul das cousas
Onde sofrer seja uma cousa mais suave,
Onde viver custe menos ao pensamento,
E onde a gente possa fechar os olhos e adormecer ao sol
E acordar sem ter que pensar em responsabilidades sociais
Nem no dia do mês ou da semana que é hoje.

Abrigo no peito, como a um inimigo que temo ofender,
Um coração exageradamente espontâneo
Que sente tudo o que eu sonho como se fosse real,
Que bate com o pé a melodia das canções que o meu pensamento canta,
Canções tristes, como as ruas estreitas quando chove.

Fernando Pessoa (Álvaro de Campos?) – Novas poesias inéditas

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