Arquivo do dia: janeiro 21, 2010

Despertares

“Todo o caso de loucura é porque alguma coisa voltou. Os possessos, eles não são possuídos pelo que vem, mas pelo que volta” Clarice Lispector

A loucura invade a galáxia, irrompe a atmosfera, atravessa estradas, violenta a casa e o atinge. Não. A loucura estava dentro, hibernava profunda dentro dele. Acorda ainda sonolenta, os olhos bem devagar alcançam as luzes e dão formas às coisas. O rosto ainda inchado daquele sonho de séculos. Depois do seu despertar, todavia, não há volta. A loucura tem os ouvidos atentos para a ruidez do piscar de olhos do seu hospedeiro. Ah, todos os silêncios preparam o estourar das ondas!

Parasita, a loucura se deleita nessa terra de ninguém que é o homem. E a pobre vítima se desespera, esperneia, vocifera, quer matar, quer cometer suicídio. A estranheza se apossou do espectro e não há nada – só o tempo? – que o permita sublimá-la.

Hipocrisia tamanha em assombrar-se com o âmago! Porque o louco não é avesso ao mundo. O louco não é manicomial. A vida só está pulsando em ritmo acelerado e se enxerga demais. O louco toca seu vazio fértil, engole todas as possibilidades de uma vez e não as digere.

Não há íris que suporte essa nitidez horrível que há em cada pedra.

Uma vez insano e acabou. É um gole para contaminar toda a existência. Não há cura. Mas há a arte que fagocita. E há também a intersecção das realidades. É no outro, cúmplice, hospedeiro insone. A noite pode avizinhar-se em calmaria. Desde que exista um e apenas um ser humano que confesse em mudez. As palavras não libertam a loucura. Também já estive adormecido.

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