Amor Inconcluso

 

Ana galgava devaneios enquanto a máscara negra ia cobrindo seus cílios compridos.  De sua mão escorriam gotas imperfeitas, repletas de cólera e temor. Encontrava-se horrorizada pelas sensações que assombravam o espírito, naquele instante. Ana já não galgava – lenta em sua exatidão – cada uma das lembranças que a acalentaram a alma após aqueles quase trinta anos.

Como ressurgia assim, meu Deus?! E por qual razão, agora, vinte e sete anos depois? O incognoscível sabor da possibilidade ia surgindo ansioso em sua boca, já pintada de vermelho sangue – e como era óbvia, na escolha do batom! Às vezes a obviedade insurge para dar nuances ao real.  

Vinte e sete anos. É uma vida! Toda uma encarnação em ausência. Repousara em recordações durante todo esse tempo? Fora escrita de novo, na casa da memória? Nada. A existência havia entardecido rapidamente, como se fosse abrigar um dilúvio.

E por que a sincronicidade ri dos seus sentimentos depois de vinte e sete anos? Não guardaria mais tudo aquilo que a imaginação construíra? “Sou apenas uma prosódia que precisa se aconchegar à melodia?”, refletia estupefata. 

A senhora de quarenta e nove anos incutia a imagem no espelho. A velhice não chegara em decrepitude, como acontecera com a maioria das amigas dela. Embora precisasse de uma cinta modeladora para apaziguar as formas no vestido, havia uma beleza ainda pueril no desenho dos seus ombros. Enquanto o corpo envelhecera, os ombros permaneceram intactos, resguardando as saboneteiras salientes. Era seu resto de infância traduzido na ossatura.  

Era tão fácil para ela entender a aparente imortalidade dos ombros. Porque uma vida sonhada fora muito mais bela. E os ombros não suportaram jamais as dores da velhice. E tudo para Ana havia sido leve e sonhado e puro. Até o momento em que atendeu ao telefonema do amor devaneado.

Por que atendeu ao telefone? E por que ele liga, justo hoje? “Já tivemos tantas oportunidades de nos cruzar pelas calçadas! Quantos aniversários de amigos em comum fui, à espera de reconhecer o seu olhar quente, desértico. E o destino jamais quis o nosso re-encontro!”

Justo hoje ouvia um “eu te amo” desesperado. Como assim? “Vamos tomar um café na livraria onde nos conhecemos?” ele disse, animado. E ela, estarrecida, disse que sim. É claro que sim. E agora, com a maquiagem pronta, os cabelos tingidos, as mãos feitas, a cinta disfarçando a barriga, agora já não sabia se desejava destruir todos os sonhos com esse mísero café.

Esse século que os separou a alimentou. Amor inconcluso. Ah, quantas noites não vividas tiveram o gosto indecifrável da ventura! Como ela fora resiliente, frente a todos os infortúnios, só por ter trancafiado apaixonadas fantasias! E de seu sono imperturbável nasceram todas as defesas contra as enfermidades mundanas. E tudo estava correndo o risco de ser acabado.

Seria inelutável? Havia uma robustez tão grande de espírito, por todos os futuros inventados! Um amor sem molduras, rebento em larguezas juvenis. Amor que dorme ao relento sem precisar agasalhar-se. Há maior amor que o amor imorredouro?

Num esforço de lembrança, Ana velava as sobrancelhas do amado. Passava pela sua barba imponente. Ressuscitava cada centímetro dele. Ela sabia de cor suas unhas redondas. E sabia de cor as cutículas pesadas de carne. Porque teve uma enorme tristeza em vê-las partir.

Indelével. Fora assim que a inconclusão pousou em Ana. A fortaleza do vir-a-ser em quimeras lhe cobrira de esperanças para inúmeras vidas. Como o que ocorre com os escritores, ela havia dado a si mesma o presente da invenção.

A curiosidade mesquinha sobrepujaria sua insana recordação? Porque, para ela, ele tinha a alma aberta como o mar em noite de ressaca. Seria capaz de aniquilar uma imagem tão bela e tão inumana como esta? Haveria ele envelhecido normalmente? Com preocupações estúpidas? Com questões triviais? Mas se ainda a amava, poderia ter se transformado num completo imbecil? Ele navegou com ela por canções inebriantes. Mastigaram juntos os mais belos pores-de-sol.   

Não. Não ousava descrever em palavras o que efetivamente havia acontecido. Todas as vezes que se submeteu à confissão desse amor, partiu-se ao meio. Ninguém a entendera. E nem era para ser entendida. Seu amor era monolítico. Os rastros ficariam estampados nas gavetas, escondidos nas paredes embranquecidas, encerrados nos abraços perigosos.

Ana acendeu um cigarro. Sentou-se na cadeira de balanço. Invocou a presença de Chet Baker. Preparou um copo de uísque sem gelo. Recolheu toda a bagunça que estava para fora dela. E esperou a noite chegar. Satisfeita. O sangue não partiria de suas mãos. Ana era grata por não ser uma assassina de irrealidades. 

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1 comentário

Arquivado em Textos meus

Uma resposta para “Amor Inconcluso

  1. Que lindas palavras amor, me tocaram profundamente…

    Ana é um arquétipo quase perfeito. de alguém que conheço.

    E saiba que com ela concordo em plenitude; “…o sangue não deve partir de suas mãos…” Considerando sobretudo ela, pessoa formada e nascida a poucos ou muitos. Por que inóspita se difere da prescisão mundana de aguardar um retorno convencional das pessoas… E por isso, somente por isso, está conjugada a amar diferente sob um olhar menos duro do que o resto do mundo…

    Sobretudo é preciso entender que Ana possui a alma clara, mas que também é noite, cigarro e batom vermelho…

    Amo você minha irmã de alma…
    Beijos
    Marquinhos

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