Arquivo do mês: dezembro 2009

Clarice Lispector, minha

São três horas da manhã. Há cerca de meia hora tive um impulso: precisava fazer café. Foi inescrutável. Meu corpo e meu cérebro clamavam por café. Senti-lo entrar nas células e tornar o planeta mais inteligente. Café faz isso comigo. Sinto-me muito mais atenta às nuances cotidianas do viver.

Não demorou para compreender quem realmente pedia café. Era você. Era você que me obrigava a sentar agora e vociferar o que eu ainda não sei exatamente. É seu aniversário e seu direito. Já bebi tanto das suas palavras!

Começo pelo que mais me perturba, antes de elogiar. Pois prefiro as más notícias, primeiro. Será que consigo também é assim?

Irrita-me profundamente o fato de você não saber ser escritora. Juro, muitas vezes pensei que apenas um fingimento muito bem ensaiado era capaz de aveludar tamanha modéstia.  Depois, lendo, relendo, decifrando, enervo-me mais. Você está sendo sincera e tímida ao assumir que escrever é maldição.

Tenho inveja da sua máquina de escrever. Queria tanto esfolar meus dedos entre as teclas, sangrá-los em versos. Rasgar o papel. Passar a limpo. Rabiscar com a grafia menor margens, esquinas de frase. Ver nascer epifanias translúcidas em um fim de tarde nublado. A escrita virtual não é meramente mais sóbria. É mais comedida, mais burocrática. Deslustre.

Contudo, posso ofertar-lhe alguns ensinamentos que absorvi. Você é a minha grande vereda literária. E eu tenho imensos ciúmes da sua popularidade entre as pessoas. Detesto ver seu lirismo aprisionado à saliva de outros leitores. Não suporto conceber que há outros livros por aí, que não seja o meu “A Descoberta do Mundo” – embora tenha absoluta convicção de que não há outro tão surrado, tão vivido e tão amado como o meu. Em frangalhos de tanto uso.

Eu fui salva e submersa por sua loucura. O mundo pode me agasalhar, só porque existiu a sua poesia nas minhas mãos. Certa vez, indignada com a genialidade do “apurar a pureza”, peguei um giz branco – porque a pureza é inexorável giz e inevitavelmente branca – e escrevi na lousa: apurar a pureza clandestina. Isso virou título de texto meu. Mas você, naquele minúsculo parágrafo, na página perdida no meio do livro, você evitou a minha morte. E não conto o porquê, ficará eternamente guardado nas entrelinhas.

Fico feliz que você tenha morrido. As pessoas escrevem muito mal, amada Clarice. Hoje, todos se sentem dignos de autoria. Quando a leio – enganando a mim: somente eu a possuo – penso sempre nisso. Ainda bem que o universo a impediu de presenciar os horrores pseudoliterários que nos cercam.

Muito obrigada por compartilhar seus pecados comigo. E por ter escrito a maior história de suspense de todos os tempos: “A princesa – Noveleta”.

Agradeço-lhe também por desengradar os pudores e as muralhas do pensamento. Pelo exaspero em devorar detalhes. A maestria em repetir as mesmas palavras, dando-lhes infindáveis possibilidades. Pela vida às mesquinhezes austeras. Você transfez meu estrabismo em envernizada visão periférica.

Minha alma também teve problemas com enxertos. E a sua poderosa literatura foi alicerce para encerrar as rejeições. Ao mesmo tempo, quantas peles me foram arrancadas dos lábios, graças a você?

No entanto, houve um grande incômodo no nosso encontro. Quando a vi na televisão fiquei mortalmente compadecida da sua fragilidade. Desliguei a lembrança. A sua voz, Clarice, reside única dentro dos meus olhos e não posso ferir minha imaginação com a realidade.

Anúncios

4 Comentários

Arquivado em Textos meus

Sobre cata-ventos


Estou farta da escrita rebuscada. Alheia às difíceis palavras adultas, às jornadas maduras, à literatura anciã. Eu só quero, esta noite, estar no colo de uma poesia criança que ensope os devaneios em simplicidade.

Luto árdua e diariamente contra tudo o que carregue etiquetas. Muitas vezes a batalha é desleal, posto que creio no efeito das dificuldades. Só que agora me dei conta – porque sou uma pessoa perlongada – de que nada vale poeticamente senão em nudez absoluta. A sabedoria é crudívora.

A poesia verdadeira mora em minha casa de bonecas. Seus versos miudinhos têm dedos curtos demais para acertar uma trança em simetria. No entanto, ela alcança com precisão os nós dos cadarços coloridos.

Suas estrofes são floreadas por estalos, brotos de maria-sem-vergonha. Têm olhos descerrados, rebentos. Como se a inocência tivesse sido violada por outonais crepúsculos. E, ao mesmo tempo, está acorrentada à dor infante da eternidade. 

Ela anda a embebedar-me em longínquas viagens pelo chão do quarto. Para meu espanto de gente grande, não há silêncio ou solidão que a incomode. São, ao contrário, parte dos cenários, eixo dos castelos, essência dos bichos inventados. Porque não é trânsfuga da sua condição. Esses medos não habitam os hemisférios pueris. Brincar desacompanhado é cata-vento. Só é preciso um sopro para existir vida.    

Procuro perscrutar o que a poesia menina balbucia. E ela não responde mas açucara as minhas imagens. Depois, exausta de perder-se em bosques intransponíveis, adormece. Prefere dormir com o estrepitar da chuva. Não pela obviedade do ninar – essa melodia lugar comum – mas porque sabe que na chuva há companhia para atravessar os escuros.

Vejo-a resfolegar o mundo onírico. Descubro sua pele. Ela está repleta de machucados azuis. Aqueles que se aperta com prazer para recordar que algumas dores são doces. E que, passado um segundo, não doem mais.

Tento tocá-la. Imediatamente esquivo-me. Sinto-me desguarnecida. A meninice poética assusta mais do que o espectro do envelhecer. Assim, ela escorrega de mim em cambalhotas e carrosséis. Eu aceito sem questionar. Pois sei. O dia em que meu escrever atravessar o oráculo da infância, estarei pronta para deixá-lo. 

1 comentário

Arquivado em Textos meus

Minha verdadeira musa

Já confessei, outrora, que a minha paixão pelas poesias começou com os velhos cadernos encapados de minha mãe. Quantos poemas eu não roubei daquelas páginas! E hoje ainda sonho em ter um milésimo dessa intimidade. De presenciar ao menos um encontro, como os dela com as palavras…

O Hóspede – Miriam Portela

Mora em minha casa

um poeta louco

cansado de seus excessos.

Nos seus desvarios

ele me fala de aventuras e de sonhos.

Nos momentos de lucidez

descreve territórios e pátrias

em que já viveu.

Mora em minha casa

um poeta velho

exausto de eternidade.

Na sua loucura mansa

cultiva canteiros

de girassóis e miosótis

que esmaga com fúria nos momentos de dor.

e toda luz o cega

fazendo-o chorar lágrimas excessivamente salgadas. 

De vez em quando

ele me toma nos braços

e dançamos noites seguidas:

ele embriagado pelos escuros

e eu fascinada por sua embriaguez.

Mora em minha casa

um poeta rude

que grita impropérios e

rasga com suas unhas sujas de terra

os versos recém nascidos.

 

De vez em quando

em suas mãos crestadas pelo sol

ele me oferta o gosto do sal

trazido do mar do norte

e em sua pele áspera

cortada pelos ventos gélidos do ártico

desenha rios e fiordes.

mora em minha casa

um poeta triste

como um menino órfão

a exigir carícias

a cobrar afetos

tantos

Vive em mim

um poeta

e eu o protejo.

3 Comentários

Arquivado em Outros poetas

Míope é a vida!

Um lindo poema da Adélia Prado, interpretado pelo Mané do Café. E, incidental ou não, uma homenagem à minha mãe!

1 comentário

Arquivado em Vídeos Tejo Bar

Sonhos não envelhecem…

E no meio de tanta tristeza que aterrorizou a sua segunda-feira, você lembrou de mim. Meus sonhos, ao seu lado, não envelhecem…

Deixe um comentário

Arquivado em Outros poetas