Promessa de Ano Novo

O Natal de Maria Clara, naquele ano, havia sido mais triste. Desde que conhecera o Teatro Municipal, não encontrara muita beleza nas luzes estapafúrdias que engoliam a cidade e as pessoas.

O Réveillon também era uma estranha recordação. Seus tios, depois de uma certa altura, pareciam mais crianças que ela mesma – e isto fora muito divertido. Só que, no dia seguinte, passaram a se queixar de dores de cabeça. Cobriam seus olhos com óculos escuros. Fugiam impunes do sol, em plena praia. Como uma noite de infância dói tanto?

Clarinha refletiu muito tempo sobre esse assunto. E, como necessitava de uma resolução para todos os problemas, perdoou os parentes. Realmente ser criança é ter muitos planetas à disposição. Isso deve machucar as cabeças que trabalham todos os dias.

O verdadeiro significado do verão, para ela, no fundo, no fundo, era o mar. Levantar bem cedinho – o frio da noite ainda não fora dormir – e observar os raios amarelos que pintavam as ondas com precisa timidez.

Com o mar, Maria Clara passava horas de sereia. Coordenava aventuras infinitas, que só seriam resolvidas no misterioso amanhã. Aumentar o tamanho das histórias prolonga os verões, pensava com orgulho de si mesma. E era o almoço o invencível vilão. Porque depois dele o mar seria saudade de imaginar. Ah, a obrigação horrorosa de digerir as manhãs. 

A menina descobrira uma forma genial de acelerar as duas horas que a separavam do mar. E como sentia-se esperta de ter elaborado aquela saída! Eram horas de leitura, de concentrar-se totalmente nos livros. Até sentir a vertigem gostosa. Até grudar-se nas páginas e quase não ler mais: a palavra já estava presa aos olhos.

Nos fins de tarde, quando o mar era muito gelado e o coração estava nublado de lembrança, vinham as peripécias contadas pelos tios. Narrativas de piratas e navegadores de verdade. Mas tudo, tudo sempre encharcado de oceanos protagonistas.

E foi numa tarde de janeiro que a tia, com ironia ferina, contou para ela sobre a descoberta do Brasil. Com desdém, riu-se dos índios. Primitivos. Incapazes de enxergar as caravelas. Sentiram apenas uma estranheza no horizonte!

Para a menina, nada era mais óbvio. Como poderiam ter avistado? A imaginação ainda não tinha sonhado com navios. Exatamente igual ao que ocorria com seus personagens de mar. O hoje é fundamental para o nascimento das coisas. Ontem, por exemplo, não havia criado uma baleia que a salvasse dos dentes terríveis do tubarão. Se a baleia fosse antecipada, não existiria a taquicardia da batalha.

Enquanto os tios amarfanhavam os heroicos índios, Clarinha ia deixando aquelas falas inúteis serem anonimizadas. Fez para si uma promessa de Ano Novo: passaria o resto daquele verão – ou se fosse preciso, o ano inteiro – à procura de índios. Índios que, como ela, não traduziriam em caravelas o indizível sentido das marés.

 

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1 comentário

Arquivado em Textos meus

Uma resposta para “Promessa de Ano Novo

  1. Nicole

    2010 promete.
    Estou ansiosa.

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