O texto que se esqueceu de si mesmo

Ando à espera das minhas solidões. Não é a depressão, espectro da contemporaneidade! Desejos suicidas jamais me procuram quando penso em meu isolamento cósmico. No mundo de hoje, contudo, às vezes é muito perigoso fazer uma afirmação dessas. Estar só é degenerar-se? Por que a solitude ganha sempre fúnebres reflexões?

Minhas ideias ousam desembarcar, mas não encontro portos que as abriguem. Tudo me é borbulhante, avulso, vago. E só há um vilão para todo o meu sobejar. Sofri uma espoliação: retiraram-me os jardins do sonhar, casa da minha solidão.

A morada da qual vos falo nada possui de quietude. Ela já esteve presente no meio de uma conversa trivial, quando – apesar de prestar imensa atenção – minha mente engordava de pensamentos. Também a recuperei em irritantes céus de churrasco. O dia inebriava-se azul e a minha ínfima condição obrigava-me ao trabalho braçal. Na sóbria caminhada para o lavor, pude ocupar meu firmamento de poesia e granjear pequenos versos, bêbados, inacabados.

No entanto, naquela época, era de minha posse recuperar as imagens, resgatar as profundezas dos devaneios sem perder uma vírgula sequer. Salvaguardar as reminiscências em sua plenitude.

Hoje sinto que tenho abortado palavras, sentimentos, parágrafos inteiros… Faz-me tanta falta, cômodo do meu delírio! E se não há um lugar específico, aonde eu guio minhas perturbações literárias? Em qual sussurro, em qual vestido, em qual cidade posso reaver meu instante solitário? Estou farta dos textos que se esqueceram de si mesmos!

Talvez precise voltar a me apoderar dos diálogos insanos, com pena e tinta nas mãos. Esponja que sou, dos olhos alheios. Revisitar músicas dos anônimos, aqueles que pintam sopros em nanquim e nutrem meus seios, desanuviando o cerne do espírito.

Enquanto o habitat me é desfavorável, emendo as camisolas velhas, consciente da inevitabilidade das cicatrizes e da iminente morte do tecido. A tenacidade das inspirações não reside nos seres, nas paisagens, nos planetas. É apenas o olhar conciliatório, a tradução para os planos não cartesianos.

Assim, órfã de sítios onde o fictício torna-se possível, busco os degraus insólitos, improváveis. Desato os nós etimológicos. E festejo a descoberta das letras expatriadas. Inéditas.

Corto as unhas compridas, encarnadas de feminilidade. Porque elas fingem-se imortais, suspendem o coração do perecível. Eu quero a pele despida da queratina, somente imersa nas quimeras.

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2 Comentários

Arquivado em Textos meus

2 Respostas para “O texto que se esqueceu de si mesmo

  1. a primeira frase do texto me trouxe um (des)consolo enorme… ai ai! ah, e amei a foto! beijo.

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  2. O primeiro parágrafo é incrível… o texto todo na verdade… mas as primeiras palavras me fizeram refletir muito… vai de encontro ao que de muito é cerne em minh´alma… E eis a intrigante questão: Estar só é degenerar-se? Por que a humanidade em suma igualdade pensa que sim? Somos conduzidos à isso? E por isso frutos de uma inerte promoção “marqueteira” de mundo ideal.
    Quem propagou que os acompanhados são os distintos? E porque os solitários cada vez mais são extinguidos? À mim o temeroso estar só, no fundo solidariezar-se consigo mesmo, ou com algo que se é de muita importancia… Acredito que é o melhor caminho para encontrarmos os lugares de direito e quietude de nossos espíritos, versos ou divagações… E é deste encontro tão precioso, que se dá o novo, e as grandes experimentações…
    Bjs
    Mari!
    Amo vc amiga!

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