Das Purezas Clandestinas

Perdoem-me os inquilinos do Sol, ávidos de manhãs. O relinchar dos pássaros me é alergia. Porque não há nada nas auroras que seja límpido: a claridade espanta cruelmente as purezas da terra. O olhar, quando puro, é sempre acompanhado de escuridão. Os crepúsculos, cavaleiros impiedosos, anunciam que a Majestade se aconchega. Incapaz de ser contaminada pelo brilhantismo mesquinho dos diamantes.

A poesia dificilmente nasce resplandecente. Porque a terra é sempre castanha. Os porões não são senão iluminados por velas. Epifanias são cegas. Essa singela atmosfera primaveril – lugar comum dos sonhos! – é insuportável para as meditações. 

Eu confesso. Prefiro as feridas abertas à espera das crostas. Quando o sangue ainda está vivo percebe-se melhor a dor. Quando a vermelhidão jaz não se pode alcançar a nova pele. Posterga-se o futuro. Encolhe-se a liquidez frente à incerteza do porvir. Contudo, a escolha dos corpos pelas côdeas não é aleatória. Serve de abrigo para a epidérmica purificação clandestina. Revigora as chances de renascer outras carnes.

E é sobre a ilegitimidade da vida que se deve falar. Ah, penosas imigrações solitárias! Quando a boca aprecia, estupefata, o vinho que foi servido em chávena. A morte das uvas só é evidenciada nas faces transparentes dos cálices. Quando ocultado pela porcelana, é irrevogável. Alcoólicas farpas pulsam dentro de nós. A alegria indizível, infantil, daquilo que não nos é permitido.

Ao pular os muros regulamentados, o mundo liberta as matizes da humanidade. Os pecados, a culpa católica! Tudo sendo dissolvido num depurar bastardo. As mais belas vozes são trêmulas, embriagadas. Violadas dos preceitos religiosos. Das convenções, manuais dos errantes, leva-se a certeza das infrações. Os ritos suntuosos só espelham solenes lavagens cerebrais.

Nos segredos tortuosos, nas intimidades sujas, nas coléricas madrugadas fazem-se palavras. A imundície é o verdadeiro palco dos versos. Só esconjurando Deus é possível emancipar-se. A viuvez primeira de se saber fraco. Diligência em saber-se erro. Estar alerta, consentâneo. Descortinado. Insanável, como tudo aquilo que comunga os silêncios.

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