Quase

 

Quando eu era pequena tinha um cachorro de plástico com rodinhas e chapéu quadriculado – daqueles que a gente pode fantasiar passeios – chamado Quase. Do Quase eu me lembro nitidamente, como se ele tivesse acompanhado todos os amadureceres ao meu lado. Talvez seja o brinquedo que mais tenha alma de fotografia, dentro da minha memória.

Nos últimos tempos, tenho recordado inúmeras vezes meu Quase. Porque eu, hoje, habito a morada dos quases. E, não sei se por egoísmo ou ontologia, acredito que esse lugar seja o grande limbo da humanidade. O Quase é a casa da deslembrança.

Primo do Quase é o mediano. No entanto, contrário do que se pode pensar – em uma primeira análise – eles são desirmanados. A planície da mediocridade, embora vizinha, não germina os mesmos frutos. Porque o dono da propriedade deita sementes de outras naturezas.

Nas cordilheiras do Quase reside um senhor de relógios. Suas vestes foram carcomidas por amores adiados. Seus dedos têm rugas de mar. E mesmo devastado por tudo aquilo que não foi, o senhor permanece insuspeito, tranquilo, imune.

O senhor de relógios só cultiva coisas demoradas. Há uma vinicultura gigantesca em seu território. Como essas uvas anseiam pela metamorfose! Quantas vezes sonham com a liquidez em garrafas. Mas as brumas gestantes suspendem todos os seus desejos de celeridade.

Os homens e mulheres que convivem nos domínios do Quase são muitos. Alguns demonstram fadiga e envelhecimento. Porque não há camas nos cômodos. O senhor dos relógios não permite que o sono abrande o esgotamento da jornada. Tampouco é permitido sentar-se à beira do lago. O Quase é reino de movimento.

Assim, as janelas ficam escancaradas. Não há distração que não possa entrar. Mágoas maquiam púrpuras olheiras. Desesperos assombram os inquilinos com sopros de eternidade. E amiúdes fracassos deblateram os perigos de almejar.

As semoventes aparições levam as pessoas à loucura com enorme facilidade. E todos os dias eu vejo esquálidas criaturas dizerem adeus ao domicílio do Quase. Com as almas em carne viva, desistem. Emigram, cabisbaixas, para os vales da mediocridade.

Outros encontram-se totalmente anestesiados. Já não andam nem falam. Em pé, permanecem imóveis. São pessoas que aceitaram a tardança. Não têm a mínima intenção de caminhar direção ao cume.

Eu estou aguentando a paralisia do agora. Sei que hoje não avistarei o mundo do ápice. Insone, permaneço. Sem precipitar os devaneios de topo. Não carrego nenhuma pressa. Porque sei que a realização não é casa de ninguém, mas a  efêmera luz que ela deixa apaga todas as demoras.    

 

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1 comentário

Arquivado em Textos meus

Uma resposta para “Quase

  1. Douglas

    E se o Quase fosse uma morada, o Barrichello seria o landlord.

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