Amor de instante, instante de amor

niver_lala

Há dias possuo um tema muito pertinente para os versos. Até a foto que ilustrará suas linhas já está devidamente reservada, manto para o seu rebentar. Contudo, está sendo impossível fazê-lo desfranzir entre a inópia das  minhas ideias.

Decidi, pois, doar o meu hoje ao pensamento vazio dos truísmos. Espantar quaisquer formas de elaboração cerebrina. Sequestrei-me de mim, posto que as palavras negaram sua magnitude. Ter mote sem espinha é matar o glosador.

As luzes do quarto e do olhar já haviam sido apagadas. Eu estava prestes a desligar o computador. Foi quando deparei-me com um minúsculo inseto de asas incontestáveis e de aspecto repugnante. Ao acender as luzes, atabalhoada pelo horror enorme àquele ser infinitesimal, descobri-me a mais ínfima criatura do universo. Era tão somente uma linda joaninha que viera visitar a minha demérita madrugada.

Instantaneamente senti um profundo amor por aquela joaninha diminuta. Ela passeava lentamente pelas letras escuras do meu delírio. Voava tão baixo que me era possível sentir seu respirar.

E era gélida. Platônica. Inconsciente do transbordar. Alheia à invasão que provocava em minhas terminações nervosas. Sem a mínima pretensão de ser meu elo poético.

Escrever nada mais é do que essa fatalidade feliz do encontro, essa sincronicidade ilusória, essa máscara de destino. A escrita só escolhe habitar os psicógrafos das atenções flutuantes.

No entanto, não se pode confundir. A espera reveladora não é sinônimo de paciência. Pode-se passar toda uma vida devaneando aparições de joaninha. Mas basta um segundo para que sua convergente presença seja evaporada em janela.

Estúpida, passei semanas à procura das imagens! Eu almejei tanto um discorrer acerca dos imprevistos amores. Eu, iconólatra, engoli páginas e páginas, auscultei pilhas de escrituras.

De repente, compreendo a subitaneidade apossando-se de mim. Mais uma vez estou imersa em paixão instantânea. E a vida curta de joaninha – precisamente cento e oitenta dias – transfigura-se em pequenas eternidades.    

Anúncios

1 comentário

Arquivado em Textos meus

Uma resposta para “Amor de instante, instante de amor

  1. Rogerio

    Muito legal dona Mariana!!creio que minha ajuda em nada ajudou!! rsrsrs…

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s