Sobre os dentes de leite

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“Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda”. Clarice Lispector

 

Eram quase três horas da manhã. Tragávamos o cigarro que religiosamente precede nosso adeus. A conversa, galáctica, já irrompia nebulosas. A fumaça alcançava – braços longos que tem – satélites e órbitas inabitadas. Íamos juntas, enlevadas. Pejadas estávamos, gordas de madruguez:

– Sabe, amiga, eu nunca gostei da multiplicação. Quando estamos multiplicando, na realidade há uma repartição. Tornamos as coisas pequenas. A essência esquece de si, fragmentada em minúsculas parcelas.  

Quanta sabedoria despontava em sua confissão! Fiquei cerca de dois segundos estacionada naquela frase. E respondi, cúmplice que sou:

– É por isso que os únicos providos de alma são os números primos. A eternidade é divisível.  

Imediatamente, ficamos nítidas. As miopias cediam, uma por uma, lugar para os epífanos sentidos. A aterrisagem do olhar primeiro nos permitia navegar águas mais foscas… Dissertamos matematicamente acerca das relações e das suas raízes quadradas. Inserimos cada ser humano na indubitável condição. Só somos repartidos em nossa própria unidade.

Por qual razão, números primos que somos, tão facilmente nos multiplicamos nas relações com os outros? Não há deveras verticalidade nos humanos? Os trilhos não são supostamente  preenchidos em horizontalidade? A harmonia cósmica não reside nos espíritos pensantes?

Seria preciso acender mais um cigarro. O diálogo era, naquele instante, ectoplasma. O simulacro dos relacionamentos mais uma vez tecia os pensamentos. Felino, ronronava entre as ideias, aconchegando-se nas memórias mais longínquas. Cigano, roubava-nos a racionalidade. Por que, meu Deus, por que vivemos constantemente em estressantes movimentos de gangorra?

Quanto mais recordávamos nossos relacionamentos – fossem eles de amor, de amigo ou de escárnio – mais óbvias íamos nos percebendo. Ao revisitar a nós mesmas, nenhuma comunhão oblíqua havia sobrevivido com ternura. Todas estavam trancafiadas em pesadelos, empoeirados conveses da lembrança.

Todavia, nem tudo era carregado de maledicência. Havia também aprazíveis resgates. Às margens dos envolvimentos medíocres, nasciam delicadas reminiscências. Eram devaneios das relações aprendizes. Encharcadas de lepidez, indissolutas, primas. Indivisíveis.

Desvelado o grande mistério, era fácil compreender. Um manancial de descobertas sobrepujava-nos. A clarividência enfim tomava as fumaças e concretizava-se, sincrônica. Como era lindo estar em posse de tão precioso pecúlio!

A felicidade residiu em nós apenas quando estivemos na condição de alunas. Ah, a doçura do desconhecimento! Os náufragos personagens que mereciam morar nos sonhos eram aqueles que acordavam as nossas verdadeiras paixões. O resto, o resto cobria-se inteiramente em sofismas.

Infelizmente, poucos são os homens que revelam-se cândidos. Equivocadamente precisamos nos afirmar em maestria. A ignorância aparece como desvio, estupidez, fraqueza. O que há de errado em reconhecer-se na incompletude? Por que a nossa falta de luz denota tamanha humilhação?

Naquela madrugada, algo fora despertado dentro de mim. Selei, calada, um pacto para toda a minha jornada. Tenaz e silencioso. Quero tudo o que seja decidual. Nada além do que uma vida entre dentes de leite.           

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