As Pazes

O ser, quando faz as pazes com a matéria, invade galáxias, conflita com as divindades estupefatas. Não há nenhum entorpecimento mais carnal do que fazer as pazes. E longe da ideia do perdoar. São outras lágrimas de luz que o alagam. O perdão – infelizmente – hoje carrega as cruzes católicas. Tem sangue batido em suas pétalas.

Congraçar-se, por sua vez, nada possui dos confessionários. A penitência é anterior. E já encontra-se paga. Também ultrapassa verbos como desculpar-se. Que humanidade estabeleceu a anulação da culpa? Passado é sempre tatuagem. Apenas o olhar tem direito a óculos.

Ligar-se novamente a algo tem o cordão umbilical em cumplicidade. É a comunhão de dois seres errantes. Sejam eles corpo e alma, pai e filho, namorados, irmãos ou traumas. O enredo da história é o menos importante. É vergonha em parceria, sem dividir a dor pela metade.

Se me perguntassem qual é uma característica puramente humana, eu diria: fazer as pazes. Os bichos e o mundo são mais evoluídos neste aspecto. Uma pedra é passiva frente às ressacas marítimas. Não se angustia, submersa em fúria oceânica. Uma estrela cadente sabe que sua morte é consagração.

Nós, intermitentes dos deuses, perdemos a sabedoria milenar dos astros. Sentimos rancor. Arrancamos cascas de feridas quase cicatrizadas para o cruel derrame sanguíneo. Regurgitamos defeitos alheios. Muito provavelmente aqueles que mais nos assombram.  E temos tanto receio dos heróis! É com intencionalidade que inventamos mentiras, corrosivos que somos. Destruimos uns aos outros, frágeis imitadores das tormentas.

Contudo, é para dar as mãos que a vida vale a pena, novamente. Multiplicar em mil as ofensas e as dividir apenas em duas partes homogêneas. Saber que apenas um cúmplice invade as equipolências. Alcançar a paz é eternamente plural, mesmo que o outro esteja somente nas divinas criações do papel.

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