Cortinas Encarnadas

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Nunca fiquei espantada com a transformação das pessoas. Parece-me até um movimento óbvio. O amor modifica, a convivência nos torna realmente parecidos. Não é à toa que mulheres cúmplices derramam o sangue da vida na mesma semana.

John Lennon, pós Yoko, virou japonês. A minha vizinha é exatamente igual ao seu basset: gorducha, ruiva, pelo curto. Manoel de Barros carrega o misticismo das abelhas. Minha mãe herdou a obsessão por refeições que outrora foi vício da minha avó.

Eu sinto-me mais verde, desde que o amor nasceu nas minhas palavras. É quase instantâneo o movimento de fidelidade canina que me envolve. Estou mais doce, mais tenra. Meu espírito é celeuma de marinheiro, canto decorado com tatuagem. Óbvia me é esta ideia – as pessoas podem consagrar gélidas montanhas.

Entretanto nunca ouvi falar em fagocitose de lugar. Nem nas leituras poéticas mais atentas, nem na nobreza acadêmica. E julgo ser uma descoberta só minha – e agora do planeta! Nós nos tornamos essencialmente parceiros dos sítios nos quais despendemos nossas horas. Como as paredes podem dizer de nós mesmos!

Essa epifania tola veio através dos devaneios solitários que vivo no trabalho. Como estão escancaradas as grandes descobertas, em pequenas algibeiras do sonhar! Como o espelho demonstra a irmandade silenciosa. Quanta burrice a minha, de jamais ter dado conta desse fenômeno manifesto.

Para desanuviar as incógnitas, trabalho em um lindo cinema. Está situado no coração da Avenida Liberdade, aorta de Lisboa. Chego por volta das dez, quando nem os fantasmas estão de pé. Faço toda a burocracia, como se pelas mãos eu fosse a regente da renascente orquestra. Durante seis dias da semana sou capaz de ressuscitar uma sala digna de realeza.

Passo mais ou menos três horas sem ter ninguém para conversar. Encontro-me desprovida de clientes, de tarefas, de limites. Às vezes invento mesmo: limpar a varanda, contar os cálices intactos, investigar qual máquina faz o melhor café…

O Cinema São Jorge é realmente digno de Cinema. Sala imensa, quase mil lugares. Iluminação com cheiro de saudade. O banheiro abriga um camarim. Tudo, absolutamente tudo me olha grande. Toda uma decadência gloriosa me habita, nesses instantes. Aquilo que foi, aquele glorioso passado! Eu me absorvo – porque o cinema já sou eu. Fico inerte pelas cortinas labirínticas da década de 50. Será que há o poder de transfigurar o enredo? É possível ser eu o maestro das sinfonias imaginadas?

Sei que é muito mais difícil descrever do que sentir. Mais o compartilhar me é objetivo maior, nessa vida. E eu lhes digo: como parecemos com os lugares onde desenrolamos nossas horas!

Isto é aviso e é literatura. Não tenho intenção – apologia grotesca. Eu apenas estou a dissertar sobre obviedades do meu coração. Eu sei que me comporto, por  osmose ou preguiça, exatamente igual ao lugar onde permaneço oito horas do meu dia. Eu sou quem abriga faxineiras que fingem trabalhar, embora não haja muito o que ser limpo. Eu incorporo a tristeza, esse vazio fantasmagórico, essa solidão desmesurada. Eu, habitante do meu lugar, sinto as marcas, as nódoas. Estou manchada pela potencialidade que carrego.

Como nos é perigoso reter os emudecidos líquidos! Se não existir uma consciência plena do que se é incorporado, a confluência vira realidade. Um pensamento estúpido é convidado a acampar em nossas divagações.

Desde que descobri esse gesto da minha alma, tomo muito cuidado. Enfeito o salão com vestidos de gala. Pinto as mesas com luvas de seda. Jogo paletós, chapéus e gravatas pela varanda. Uso com muita dificuldade toda a minha capacidade infantil de imaginar.

Em apenas um instante, todas as luzes estão acesas. Loto o balcão de doces castiçais. Os lustres só precisam de um sentimento vivo para acordarem. Fico imensamente feliz: só os fenomenólogos são capazes de cavalgar impunemente pelos passados, alterando a sua antiga nitidez.

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1 comentário

Arquivado em Textos meus

Uma resposta para “Cortinas Encarnadas

  1. miriam

    Será por isso, minha querida que eu trago nos cabelos sargaços e algas, meu corpo salga-se sozinho e ventos cortam minha alma de sul a leste? Será que trago nas entranhas marcs de arrastões, ossos de baleias, crustáceos, moluscos e infin itas marés. Serei eu, espelho de minha ilha remota, perdida em mares do sul? Sempre desconfiei que a unida identidade que eu tinha era com os cavalos marinhos, as corujas e peixes espadas. Tu revelas minha ancestralidade e meu perfil aquático. bjs mãe.

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