Relato de uma prisão domiciliar

prisao

A minha escrita se tornou pobre, nesses últimos dias. Fui obrigada a repousar. Por que mereço esse confinamento ininteligível? Onde foram parar meus refinados adjetivos? As ideias suntuosas, deixei-as na gaveta? Tudo foi-se embora. Porque o meu corpo disse chega. A minha alma, andarilha, hoje está trancafiada. Aceita com timidez os limites impostos pelos músculos inchados. Traga, então, tudo de uma só vez. E consente as paupérrimas imagens que se seguem.

São noites tão inúteis! Eu consigo ainda entrever nos andrajos um abrigo à simplicidade. Disso eu não sabia. Não entendia que deve-se fazer limpeza no intelecto. Muita atividade mental atrofia os ligamentos.

Ser intelectual aparenta riqueza e vistosidade. Anéis e colares. Ouro opressor, ópio dos vassalos. Seduz os dedos, apanha-nos o pensamento pueril, põe-lhe raros adornos. Ele, pois, vira príncipe infante. E a majestade se perde nas maquiagens mentirosas, nas perucas brancas.

Hoje, meu couro cabeludo pede descanso. Precisa retirar o mofo lírico que o envolve. Só o coração sujo, mendigo. Apenas minha imundície. Porque os poetas não deflagam imortalidades. Nada há de sublime. Tantas máscaras, tanta sujeira. Como são presunçosos aqueles que evitam a vã existência!

Ah, quantas noites desejei os palácios. Em quantas festas estive, cercada de lordes e duques do pensar! Agora sou impossibilitada de ir aos banquetes nos castelos. Tenho uma necessidade de parar. Sou uma perna semi morta. Porque alguma coisa em mim paralisou. E, assim, vivi essa semana em solidão castigada. Presa aos aposentos e aos fantasmas. Sem carne de gente por perto. Eu e mais ninguém. Parasita.

Quanto ódio! Uma ira cerebral. Farta dos livros e dos seus difíceis raciocínios. Enojada de minhas prolixas divagações. O internamento trouxe somente o ignóbil. E é exatamente esse reles acontecimento que me trouxe de volta. Os sete dias que me puseram em clausura são absoluta reconciliação.

Há, neste instante, uma mente exaurida. Os versos são simples. Está acabada a preponderância enfadonha da erudição. Tornei-me, enfim, aura banhada em cachoeira. Glacial, é claro. Mas molhada em uma frieza rejuvenescedora para o meu olhar.

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