Noctívaga

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São quase quatro da manhã e o inverno espantou todas as minhas folhas. Faz frio, chove, venta. É um desamparo tão característico, até vergonhoso. Beira a mesquinhez das imagens. Mas a descrição é verdadeira. Eu, curiosamente, preciso de gelo para aliviar minhas dores. E vivo o mais estranho paradoxo: se a neve cura meus músculos atormentados, porque o frio trata tão mal minha alma? 

Mas há o silêncio das quatro da manhã. Ele fez faxina nas vozes, nos problemas e nos bichos. Sua força é ingente. Poderia fugir com ele, se ele me quisesse para sempre em sua casa. Iria sem identidade, esqueceria meus filhos, abandonaria o marido. Iria nua, mente sem agasalhos, pés descalços. Ah, se esse silêncio me desejasse também!

Estou inerte, esquecida no quintal da minha casa. Uma tristeza encharca o banco no qual estou sentada. Esse pedaço de madeira me suporta. Aninha-me nos braços. Incapaz estou de ver as estrelas. A lua está escondida por um céu cor de terra. Meus amigos vivem seus cotidianos, emaranhados de tarefas e compromissos. Só a noite tem me feito companhia.

A necessidade de escrever é maior nessa hora. Desde rebenta assim fui: trocando os horários da normalidade. Parece a mim que o dia não espanta somente os vampiros. A poesia fica escondida sob o sol.

Os minutos das manhãs me são longos, uniformes, óbvios. Caminho por eles de muletas. Temo encostar os dedos em suas gélidas faces. A luminosidade encobre uma rigidez característica dos períodos ensolarados. Porque o calor não lhes pertence, é empréstimo beneficente do astro rei.  

Os caminhantes estão enforcados nas gravatas. As senhoras com cheiro de almoço apressam o passo. Parece que a música foi calada pelos escritórios e carros. E há uma algazarra desarmoniosa, inquietante, estúpida. O tempo nascido em claridade tem gosto de função fática. Traz em si a banalidade das conversas no elevador. Queima minha língua e as minhas palavras: eu só discorro quando o crepúsculo invade as corujas. A minha escrita dá-se no intervalo dos pássaros. Inversa aos estereótipos e chavões, são galos que anunciam o meu repouso.  

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2 Comentários

Arquivado em Textos meus

2 Respostas para “Noctívaga

  1. Adoro quando seus textos nos colocam dentro da mesma situação. Ao ler este último, em especial , compartilho de todas as sensações mesmo que aqui elas ainda não sejam verdade. Contudo é possivel sentir a solidão, o frio, o banco e até mesmo o silêncio da madrugada.
    Quanto ao frio, lembre-se que mesmo sendo constante, do quanto o mesmo nos alegrava por aqui. Lembre-se com a saudade de quem vai a porto, mas sempre volta. Está conosco todas as nossas risadas! Façamos uso delas .. Sempre !
    A propósito minha amiga, aqui faz um calor daqueles que eu sempre maldigo. (risos)
    I love you!
    Bjs
    Marquinhos

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  2. fernandabienhachewski

    Acabei de usar a mesma imagem no seu blog.. você não se incomoda né?
    alias..faz tempo que você não me visita.. Já está na hora hein..
    Amo-te muito!
    saudade.

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