Sem nome e vira lata

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Um belíssimo cão vira lata me seguiu nas últimas semanas. É imponente e habilidoso. Um pêlo que brilha, ofusca os olhos curiosos dos transeuntes lisboetas. Latido de guarda, vigia receoso.

Esse leal amigo – verdadeiro pajem – não me deixou sair muito de casa. Ficou deitado ao meu lado, essa fidelidade somente canina. Levantou vagarosamente a cabeça quando não ouvia a velha máquina de escrever. Dormiu aquecendo meus pés. Prefere o som da música clássica que, às vezes, inundou nosso ambiente de trabalho.

Não tive a coragem de dar a ele um nome. Simplesmente eu o agradeço. Afastada e solitária. Grata pelas léguas as quais me entregou. A exiguidade humana faz-me enorme bem. É um sentir tão novo, tão frágil. Uma faceta minha até então encoberta pela tagarelice ontológica. De mudez é absorvido meu pensar. Nem ao menos ouço os frêmitos faiscantes, meus pulsos. São afastadas de mim tantas tolices, tanta banalidade. E, sem nenhuma tristeza, eu vos digo: tenho apreciado muito o isolar.

No início, ter apenas um animal como companhia é duro. Abandonar a humanidade e levitar pelos espaços da solidão. Sem gente por perto, primeiro sente-se a imagem depressiva de um papel de carta que perdeu seu envelope gêmeo, com flores em relevo e gosto de morango. Estar só é não saber onde se coloca o endereço.

Minha ama de leite adorável, o cão, exorcizou esse pensamento com muitas lambidas inspiradas. Os textos fluiam até de pálpebras cerradas. Só que há em mim uma autoflagelação. Ai me perdi, em algumas madrugadas. Senti que meu ser habitava um clássico vestido de noiva. O coração cheio de inveja dos demais trajes, que tão bem conhecem a cidade. Esqueci-me de minha soberana existência. O cachorro ladrou tanto, quando me viu novamente suplicando por afetos. Seu olhar, quase mortal, decepcionado. Ele dizia, mudo: “Eu não basto?”

Percebendo que era hora de intervir, ele se aconchegou no chão, de barriga pra cima. “Pousa a sua cabeça por uns instantes aqui. Sou seu travesseiro”. Vou lhe contar uma história – disse o sábio: “Eu tinha conhecido o planeta há trinta dias. Fui o primeiro dos irmãos a ser eleito. De nada adiantou-me a predileção, na noite inaugural com meus donos. Só conseguia sentir o grosso sabor – leite da minha mãe… Como pude ser tão estúpido, flamejando em ingratidão! Lamentava ser filho único, pela falta de companheiros que agasalhassem noites de janeiro. Era eu quebrantável unha em noite de festa. A declaração de amor guardada no fim do caderno. Um fantasma grudado aos pertences da casa, acorrentado aos candelabros e tesouros.”

Não o deixei finalizar sua história porque havia entendido a minha própria. Depois de presenciar suas ermitãs fotografias, um bólide aterrisou, intuitivo, em minhas palavras. Explodiu as rasas, melancólicas abnegações. Incandeciam brasas tonitruantes. Nobres labaredas a destruir intransitivos tormentos. Ah, a glória de ter a si como última morada!

A urgência quieta de mim mesma. Arfando efervecências do interno mundo, do qual devo agir como síndica. Eu que antes acreditei-me infecunda. O outro, até esse instante,  figurando como a ponte do intransponível mistério. E estava tudo cá dentro. Enlevos fulminantes das galáxias. A mais óbvia e oracular argúcia!

Foi então que ele pegou a tigela com a boca, preparando-se para partir. Enovelada por perplexa confusão e temor, tentei impedir. E de mansinho que me disse: “Como as crianças, engulo a pureza dos joelhos esfolados. Saudade sempre dá. As distantes, sonhadas vozes das multidões. Regar flores em reciprocidade. Todavia, é preciso repousar no leito largo. Adormecer eremita. Elefante que foge para a morte. Formiga que deixa a pesada folha. Eu quero, por vezes, cortar as madeixas da convivência, dormir em crisântemos.”

Curiosamente, a missão desse pequeno mestre era dar-me abrigo para que eu mesma acalentasse o lar. Depositou as sementes e esperou que minha ferocidade permitisse ao solo o nascer.

Antes de fechar cuidadosamente a porta, falou bem baixo: “Eu agora preciso seguir meu permanente destino. Há tantos a ensinar!”

Ali fiquei, parada. Quaisquer objeções seriam inúteis. Calei as possíveis amenidades. O jeito foi abrir uma garrafa. E beber os irrevogáveis goles dos meus oceanos.

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2 Comentários

Arquivado em Textos meus

2 Respostas para “Sem nome e vira lata

  1. Oi!
    Gostei muito das metáforas que utilizaste, bem como de todo o texto.
    Me permite publicar o teu texto no meu blog?
    Trabalhamos postando textos próprios e de outras pessoas, acredito que o teu renderá os amantes de cães como eu.

    Confira meu blog e, se gostar, me autorize postar. Os créditos serão todos teus.

    Um abraço

    Curtir

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