Holocaustos escolares

palmatoria

Hoje deixo entre parênteses, suspensa no balanço das crenças, a protagonização humana. Meu sangue corre pela filosofia da escolha, sim. Abro meu texto pedindo perdão. Porque estou prestes a trair. Agradeço a religião eleita com paixão, antes de dar o beijo na testa. Amada filosofia, entreguei-me, esta noite, às limitações da sua sapiência. Eu sei de cor tantas lições que consigo ouvi: a capacidade inerente a cada ser humano de traçar seu próprio caminho; a nossa encarnação de decisões; nada em nós é prejudicado, a não ser por nós mesmos, etc.  

No entanto, a coexistência com os demais seres pode influir em nossas jornadas. Confesso, enviuvada: há em nós uma necessidade do outro. Não somos tão principais como almejamos, nós, atores dos palcos azuis. Existe tanto por detrás das cortinas. Pais, amigos, amantes, mestres. E os últimos são meus eleitos. Não quero discorrer sobre os sábios, é óbvia sua influência. Tenho o ímpeto de falar sobre os maus professores, os traumáticos em nossas vidas. Eu te imploro com voz tímida: Fenomenologia, você aceita dizeres vitimizados? É porque desvendei certos movimentos aos quais somos títeres. Infelizmente nem toda a nossa educação é depurada.

A falta de didática pode sim corroer nossos traços de genialidade, se não tivermos a alma blindada. Uma autoestima em clausura, interna e segura de suas próprias vocações. Pois se existir alguma espécie de dúvida, as habilidades podem estender o lenço branco e fugir das nossas carnes.  

Sei disso porque outra noite debulhei-me em lágrimas. Semanas atrás, vítima – não concebo outra palavra, peço-lhe irregováveis desculpas – vítima da estupidez mais mesquinha, da imundície mais institucionalizada, da soberania dos títulos.  

Eu, menina entusiasmada, tagarela, nervosa. Tanta imaginação! Quantos escassos vasos permissivos do transbordar. Quando aluna, tudo em mim é belo. Imersão em atenções intuitivas. Ideias pululantes, embriagadas de originalidade. Ah, as célebres respostas que deixei de dar, por arredia insegurança.

Lições de casa sempre me foram desafiadoras. Nunca ficar no lugar comum, nunca apresentar o que o mundo todo já fez. Inovar. Estou certa de que há em todos nós um visionário. Um matador de clichês. Um ser séculos a frente do seu tempo. E todos os meus estudos são banhados por essa doutrina.

Assim, vejo o pensamento saltitante. Ele esperneia, entorna mil bússolas. Não me é indicado caminho algum, apenas a febril convicção. Fecundar livre, magistral. Correr os terrenos, desbravando-os. Cobrir-lhes em virgindade. O labirinto acadêmico, cruel e monstruoso. Esconde demasiados atalhos nus.

E havia um trabalho muito enfadonho para o mestrado. Pousei meus dedos sobre as teclas. Busquei sustentação criativa, não queria algo semelhante com nada. Procurei nos céus um auxílio. De repente, aparece a mim uma bailarina. Inaugurou-me o entardecer das frases. Instaurou passos em sobriedade. Penteou os autores que haviam sido objetos de estudo, antes enrolados por inúmeras novidades apreendidas. Conduziu-me pelo texto-dever-de-casa. Quanta excitação eu vivi, ao desvendar novas faces daquilo que parecia maçante e hostil. Fiz dele uma engenhosa brincadeira. Porque  toda inteligência é digna dos infantes. Só a criança doma os leões da escola. Há uma grandiosa facilidade em amansá-los. Pequena idade dos dentes de lente. Aquela que torna quaisquer limitações – cruéis devaneios da aprendizagem – sucumbidas dissidências.

Os regentes da orquestra, os docentes, devem ter muita sensibilidade. Retirar o melhor. Nunca negar a produção artística do discípulo. Guardar as empoeiradas palmatórias. Claro que se deve ter a memória ancestral. Contudo, os pensadores antes de nós também tinham sonhos de futuro. E por isso permanecem na bibliografia obrigatória.

Assim vislumbro como deve ser a claridade da sabedoria. Olhar terapêutico, nunca ditatorial. Jamais mapa com tesouro acertado. Peça teatral, interativa da alma, é assim o meu tutor. Aquele que inevitavelmente molda. Todavia, nele o medo também reina – o não saber! Inesperada solidão lhe acontece. Dá as trêmulas mãos ao ser supostamente desprovido da luz. Entra no seu jogo criativo. Aprende até mais, pois novos focos são iluminados. A pureza primeira é aula magna.

Educação sempre me foi isto. E não aceito a vergonhosa designação do discente, criatura supostamente vinda das trevas. Assisti aos professores com as cabeças – sim, porque tenho mais de uma – em meticulosos ângulos. Retas. Estupefatas, ansiosas, lívidas por ensinamentos. Odes que guardei em caixinhas de música. Os mestres sempre me foram caros. E nunca me decepcionei ao encontrar suas humanidades.

Entretanto, meu adorável professor humilhou meus dons. Nada percebeu. A futurista visão das minhas palavras. Disse a mim que, apesar de esperto, meu texto não continha o ululante. Eu praticamente o havia provocado. Insinuei superioridade.

Sei que meu pranto não mereceu o crítico literário. Mesmo assim, afoguei-me. Entupi as narinas por incessantes e injuriadas lágrimas. Disse meu pai: “É só mais um guia universitário, desses que temos de suportar”.

Não é. Protesto! Um professor deve agir como jardineiro onírico. Impossibilitado de maniatar os exóticos verdes. Uma galáxia toda pode empecer, caso seja brutalmente assassinada pelas raízes. Esbagoar frutos extintos em prol da tradição? Está jubilado de minh’alma. Aceito somente pensar que seus ossos estão enferrujados, gastos. Sua vida deve ser insatisfeita, já que está acorrentada a valores morais ultrapassados.

Chorei, débil doutor, não pela minha medíocre nota. Não por mim. Não por mim. Sou tomada em altruísmo. Quantos jovens artistas o senhor esmoreceu? Quantos holocaustos aguentarão seu colo?

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1 comentário

Arquivado em Textos meus

Uma resposta para “Holocaustos escolares

  1. Batalha

    lindo texto Mariana, podemos estender o lenço branco e dar adeus a estas figuras nefastas que corroem o talento de milhares de jovens criativos. eles ficam nós não. nos continumos em frente e a frente do tempo, novas trilhas!
    adorei esta parte:
    A falta de didática pode sim corroer nossos traços de genialidade, se não tivermos a alma blindada. Uma autoestima em clausura, interna e segura de suas próprias vocações. Pois se existir alguma espécie de dúvida, as habilidades podem estender o lenço branco e fugir das nossas carnes.

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