Arquivo do dia: janeiro 19, 2009

Aletheia

fernando-pessoa

Eu ainda era um coração permeado pela infantilidade. Um jovem coração que não havia sangrado. Absorto em ilusões e incontáveis errâncias. Limítrofe de mim e da magnitude mundana. Um protótipo alojado junto ao peito e mais nada. Nem ao menos pressentia o terrível fim da autêntica ignorância. Involuntário desligamento da infância, pobre coração. Até que a poesia menstruou. Estava entornada por todas as esquinas do pensamento. Impetuosidade e fúria. A fluidez atingia as têmporas, embasbacadas. E eu, o coração, senti-me velho. Estupefato da liquidez. Ah! Como doeu a sofreguidão daqueles versos!

E foi com gulodice que devorei um livro inteiro. E outro. E mais um. A biblioteca mudara-se para o quarto. Baudelaire, Rimbaud, Pessoa, Manoel de Barros, Cecília Meirelles, Vinícius, Florbela Espanca, Camões! Quantas personalidades entraram e evanesciam em mim. Eram tantas paixões ao mesmo tempo. O palpitante coração não podia declamar juras de fidelidade. Em meu lirismo não havia monogamia. Li, decorei, recitei. Chorei com eles as amarguras. Vivi os malogros dos malditos como se a minha própria carne estivesse afundada em insucessos. Depois me ri, fortalecida em rimas. Doravante. Havia tanto ainda para ser lido.

As circunstâncias ajudaram, não há dúvidas. Desamores, culpas, contragostos, cóleras. A alma perdera a guerra contra os sentimentos. E os poetas terapeutas auxiliaram-me na reconstrução da  morada. Retiraram a cegueira estúpida do mundo: “Vamos adiante, menina! Às vezes, quanto mais duro o caminhar, mais belas são as palavras. Os poços, enigmáticos abismos do ser, só nos fortalecem.”

Eu me senti tão pequenina perto dos dizeres daqueles mestres, meu Deus. Impossibilitada de voltar à minha pátria. Por osmose, cumplicidade ou arrogância: eu simplesmente já era como eles.

Quantas vezes fui salva! Quantas noites a loucura bateu à minha porta. E vinha a leitura, exorcizando entidades inferiores. Eu os evoquei tanto. Invocados foram, para dar quentura à minha cama.

Aconteceram também os desertos. Não houve aridez ou secura que não pudesse ser atravessada, quando um abraço entrelaçava um maestro das letras. Pude doar uma poesia para cada entrave da jornada. Sobrevivi, por tê-los em mãos, às bofetadas, oceanos do lamento. Venci a esterilidade com estrofes.  

Fui para muito longe, fugitiva das intrincadas fomes inumanas. Corri dos padres que ensinam filosofia. Ignorei os assassinos da literatura. E voltar pude, a ser pueril. Fui batizada, afinal, por oníricas canções. Desmedida, estudei as forças dos meus artífices. Hoje conheço cada nota escrita de cor. Espanto em saraus as cinzas, os  fantasmas da utilidade. Afugento quaisquer necessidades. Transmutada estou em anulidade pura. Nem tudo se converte. Nem tudo pode ser calculado!

Vim provar o quanto a poesia pode modificar uma pessoa. A gente pode se sentir menos esquisito. Falta-nos coragem. Um poema pode nos lembrar: não há apenas o sagrado! Somos multívagos, somos doidos, somos trôpegos!  

Para aceitar é preciso ter os ombros extravagantes. Nus. O sentir não nos é comedido! Somos cintilantes, pulsantes fragmentos. Há em nós a fugidia herança dos animais.  

Outrora neguei o meu destino. Hoje escrevo também. Muitas vezes por achar meu universo triste e inevitavelmente imerso em superficialidades mesquinhas. A imagem poética me salva do planeta. E o planeta? Ele retorna a mim em delicadezas e nuances. Tênue e colorido. Eu o construo com as minhas memórias. Ninguém vive daquilo que é. Viver é fictício. O olhar, não se iludam, é intencional. A história não passa de egoístas interpretações. Sendo assim, meu firmamento etéreo sublima a imensidão imponente da suposta realidade.

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