Órfã da Epifania

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Estive no orfanato durante muitos anos. Sentia o frio que esvazia os movimentos dos pés. Rodeada de carência e coberta pela solitude dos companheiros de cela. Eu me via aprisionada, com as mãos atadas e com o peito cheio de palavras. Elas não saiam de forma alguma, nem com muito esforço. Mutilados estavam meus dedos, impossibilitados de carregar minha identidade. Eu era uma enfezada literária.

Uma noite, contudo, toda minha alma luneceu. Era mágica travestida de telepatia. Ou o contrário, não importa. As portas do orfanato se abriram para o meu organismo intoxicado. Vibrava ao reparar na quina de uma porta. Pegava emprestada asas de gaivota para elucidar quimeras. A música que eu queria ouvir finalmente ocupava a rádio, antes em preto e branco. O amor coloria o horizonte. Espíritos declamavam, ao pé do meu ouvido.

Entreguei-me às inesgotáveis tertúlias dentro do meu ser. Poesias inteiras aguardavam meus papéis. Urgentes, desesperadas, esquizofrênicas! Uma força atroz e desumana obrigava-me a flutuar pelos planetas mais longínquos. Por horas via-me suspensa. Nuvens me banhavam, em tempestades violentas. Fugazes. A inspiração me possuiu por noites, madrugadas e nasceres de sol. Habitava a mim sem que eu pudesse dizer nada. Eu simplesmente doava a ela meu corpo. Ardia em delírios, obsediada por infinitos eus que até então não havia sido apresentada. Gozava do meu trono de rainha sem sequer imaginar que era apenas mais uma súdita dessa malvada criatura.

Uma manhã acordei sentindo a cama em excesso. Virei-me para o lado e não a vi. A Epifania foi-se embora. Nenhum bilhete, nenhum endereço, nada. O enfeitiçante monismo abandonou minhas flores. Murchei em lágrimas e suspiros de incompletude. Desfaleci em saudades.

Bebi o gosto amargo das aguardentes da espera. Semanas que dormi ao relento, ensandecida pelas ruas. Descalça, camisola amassada, cabelos sujos. Um emaranhado de mim que não era eu. Encardida de dor e de lembranças.

Acredito que nessas horas-encruzilhadas, todos nós voltamos às raízes. Vamos buscar alento no primitivo. Porque existe qualquer coisa de índio. Qualquer coisa que precisa tomar banho nos riachos do descanso. E depois deitar na terra, energizar-se de árvores e de cânticos. Invocar trovões alados. Deixar livres os seios. Ser ninada nos braços das poderosas seitas.

O pajé da minha aldeia ensinou-me que sou como uma águia. Em determinado momento da minha existência, arranquei sem piedade nem autocompaixão todas as minhas penas. Desgrudei o meu próprio bico, à procura da morte. E a vida me ressuscita, em milagrosa orquestra. Sou, pois, toda acuidade. O devaneio do fim é o momento anterior ao ápice.      

Depois da minha internação, disse adeus à minha tribo. Marquei encontro com a malévola protagonista do meu surto. Fui reivindicar meus direitos. Forcei meus versos como faço agora, num ato de rigor e de coragem. Muitas vezes menos belos. Menos redondos. Porém, são minha propriedade. Eu enlaço rédeas nos pensamentos. A ideia que inspira é uma viagem de trem: paisagens indescritíveis, rapidez, serviço de bordo. Minha travessia é a cavalo marinho. Trajetória desconfortável, sozinha, desprovida de destinos premeditados. O Mar é traiçoeiro e senhor, perto da minha finitude. A galope, todavia, sempre mais perto do meu templo. Eu sou a amazona da minha literatura. Afinal, não vim pronta. Preciso de constantes revisões também.

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