O alpendre da minha casa

casanaarvore12

A luminescência se faz tão transparente que até parece comigo. A minha casa é sempre uma janela de quem sou. Muitas vezes criticada. Deveria tê-la construído de tijolos ou chumbo, como muitos alegam que são os materiais de suas carnes: – Para nada de mal penetrar! – retrucam grandes pavões protegidos. E suas cascas são de nozes, coitados. Melhor que a casa seja toda de vidro, pronta para a iminente demolição. Não há escudos perante às enxurradas.

Onde eu moro habita também um velho. Possui aquela barba enorme de sabedoria e cabelos crespos que se confundem com ela. É todo cinzento, esse meu mentor. Paga seu aluguel com intensas vibrações de doçura, endereçadas a todos os que comigo vivem. Massageia-me as mãos, quando sinto o terrível cansaço de viver. Alivia as dores da minha alma com compressas quentes e embalsamadas pelo amortecimento. Porque a vida muitas vezes é um chão duro e espinhoso. Precisa de bons calçados para o caminho.

Embora sempre tivesse imaginado arduamente as escadas, minha morada é térrea. Não me faltam degraus de elevação, dentro da minha mente. Como pude demorar tanto tempo para perceber que nada de fora é capaz de injetar sentimentos?

Tenho uma edícula, entretanto. É meu escritório. Com imensas esquadrias, contornos em madeira. Deixo-as sempre abertas, embora existam cortinas que silenciam a chegada do dia. Ter a escrita como ganha pão não traz a calmaria do horário comercial. Não obstante, escolho meu dia e a maneira de preencher minhas horas. Privilegiada de ver meus pequenos a crescer.  

Mel tem oito anos e uma voracidade tão grande em conhecer o mundo que me assusta. Além do intercâmbio, terei de me despedir dela inúmeras vezes, pressuponho. É assim como o nome que lhe demos. A vaguidade puxou ao pai. Por horas conversa com fantasmas. Põe-lhes no divã, infinito e efêmero da infância. Convence-os a dizer adeus. A sua pureza sábia me lembra a quietude dos cães. Ela é esguia e exibida. Tem os cabelos em caracóis, dourados. Olhos verdinhos. Um sorriso que nunca sai de sua face, rosada pelo sol da santa praia que a escurece a cada fim de semana. Apesar de ser dona dos movimentos mais sutis, não carrega a meiguice das meninas vazias. Sua personalidade forte faz minha voz tremer, em nossos devaneios poéticos sobre o futuro da humanidade.

Meu menino está na casa dos três. Logo se vê a diligência que o envolve. Taciturno e perspicaz é o meu bebê. Leva jeito com os animais. Santo descalço sobre a dureza da terra. Sua bondade faz-me lembrar tudo aquilo que quis e nunca consegui realizar. Seus ouvidos foram embebidos em tanto carinho que ele é capaz de rasgar a vestimenta para dividir o calor. É um mago mínimo, o meu menino. E seu cheiro de masculinidade é tão forte que, por vezes, fico embaraçada com as visitas. Ele conquista todas as mulheres que passam por seu rastro. O mais engraçado é que as senhoras disso não se apercebem. Acreditam em suas paixões por ele. Homem feito, entrelaça uma a uma o coração, utilizando feitiços pensados minuciosamente. Elas creem na instantânea paixão. Sábio príncipe. E eu o observo, atenta como uma mãe deve ser. Por alguns segundos com raiva da mesma fórmula a funcionar. Na maioria das vezes eu o aplaudo, calada.

Vive em minha casa também um homem. Exala um perfume de cabelos molhados. Um jeito de falar um pouco rouco. Não tem a menor autoridade com as crianças. É impedido de ralhar toda vez que ensaia. Enche nosso lar de melodias e canções. Brinca no piano, quando a casa está em festa. Conta-nos mitologias ao jantar. Ensina álgebra com solos de violão. Embriaga, noite após noite, meu útero de estranhos rouxinóis. É astrônomo quando tem em mãos um caleidoscópio. Astronauta ele se torna ao divagar sobre os projetos futuros. Ideologias e utopias clareiam seus papéis. No último Natal, trouxe de presente uma aurora boreal para o jardim. A brevidade permeia nossas escassas discussões. O crepúsculo, ao seu lado, é menos dolorido.

Na sala da bagunça, sótão meu, guardo uma coleção em meu baú. Pesos de papel, cachimbos, isqueiros. E, acima de tudo, palavras bonitas que me fazem bem. Sem nenhuma reminiscência de significados etimológicos. Apenas as palavras, em papel cartão. É até uma das nossas brincadeiras, vislumbrar cada sentido que pede uma nova abertura.

Entre as esféricas portas, vedada para desejos mais íntimos do sonhar, há o alpendre. Vertiginoso. Dotado da mais ampla simplicidade. Um unicórnio não se cansa de me visitar. Pássaros, coelhos, porquinhos da índia. Gatos surpreendem-me, com movimentos de neologismo. Os bichos circundam-me na minha pequena varanda. Eu os celebro em conjectura. Convexa, abobadada. Plácida de mim e da minha família. Inextricável. O labirinto frívolo dos pesadelos não cabe nesse anfiteatro aurífero. Estamos cobertos por lona de circo. 

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