O Silêncio e o Segredo

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O silêncio é sobretudo segredo. Seu corpo é feito daquilo que não se pode descrever, dissertar, discorrer. O silêncio nos é inacessível, na diária comunicação com o outro.

No entanto, quando se trata de comunicação literária, talvez exerça o papel principal – a entidade que verdadeiramente expressa. Pois a mudez é a espinha dorsal: tanto no trabalho do escritor, como na perplexidade de quem o lê.

Para captar as belas imagens presentes no Cosmos, é preciso calar-se. Ao organizar com rigor as ideias e ritmos presentes na configuração da imagem poética, é necessariamente em quietude que os dedos do criador podem sonhar:

“Há também poetas silenciosos, silenciários, poetas que primeiro fazem calar um universo excessivamente ruidoso e todos os fragmentos da tonitruância. Ouvem, também eles, o que escrevem no momento mesmo em que escrevem, no moroso compasso de uma língua escrita. Não transcrevem a poesia, escrevem-na. Que outros ‘executem’ aquilo que criaram na mesma página branca! Que outros ‘recitem’ no megafone dicções de aparato! Quanto a eles, saboreiam a harmonia da página literária na qual o pensamento fala, a palavra pensa”.  (Gaston Bachelard, 2001)

O autor invoca a fundamental importância das forças que não pronunciam, mas que movem os afectos de maneira igualmente humana. Sendo assim, aquilo que não fala jamais pode ser apreendido como falta, desvio, erro nos encontros entre o emissor e o receptor. Na Literatura, as vozes silenciadas são veias condutoras de sentidos.

Quem possui a árdua tarefa da leitura também conhece profundamente o vazio dos ruídos. Há a surpresa de um entendimento. Um autor que alcança a alma consegue em seu leitor o indizível. É um belo paradoxo: através de palavras, aceder ao inefável. Quantos de nós já não nos encontramos emudecidos, após o mergulho em páginas que desanuviam nossos âmagos secretos?

Muitos escritores foram hábeis a olhar o silêncio e transportá-lo para a linguagem literária. Alguns nos entrelaçam sublimes, quase chegando ao inaudível, quase entregando à escrita o vazio fértil sentido por um leitor atento:

 “Como estar ao alcance dessa profunda meditação do silêncio. Desse silêncio sem lembrança de palavras. Se és morte, como te alcançar.

É um silêncio que não dorme: é insone: imóvel mas insone; e sem fantasmas. É terrível – sem nenhum fantasma. Inútil querer povoá-lo com a possibilidade de uma porta que se abra rangendo, de uma cortina que se abra e diga alguma coisa. Ele é vazio e sem promessa. Se ao menos houvesse o vento. Vento é ira, ira é vida. Ou neve, que é muda, mas deixa rastro – tudo embranquece, as crianças riem, os passos rangem e marcam. Há uma continuidade que é a vida. Mas este silêncio não deixa provas. Não se pode falar do silêncio como se fala da neve”.  (Clarice Lispector, 1998)

 

Apesar da capacidade inexorável de Clarice Lispector – ela nos põe em quietude e mansidão – até mesmo a ela é impossível chegar a uma clara fundamentação  da impronunciável sensação que toma conta dos leitores. O silêncio de quem lê não está na comunicação do livro. É qualquer coisa que remete ao cósmico, ao vácuo, às profundezas marítimas. 

A meditação literária apodera-se de nós como imensas asas brancas. Eleva o espírito, antes tagarela. Nenhuma obra está acabada, ela se renova a cada vez que é lida: “As palavras pertencem metade a quem fala, metade a quem ouve” (Montaigne, 1592).

E é nesse espaço misterioso que se abre, magistral sobre os olhos, dilacerante sobre as cordas vocais, onde se pode buscar alguma resposta. O que existe na escrita que torna também protagonista seu expectador? Quais são os movimentos inertes que proporcionam uma silenciosa abertura no coração de quem reconhece, uma a uma, as palavras tingidas no papel? Fernando Pessoa (1888-1935) oferece uma face da inaxiomática solução:

“Nenhum de meus escritos foi concluído; sempre se interpuseram novos pensamentos, associações de ideias extraordinárias, impossíveis de excluir, como o infinito como limite. Não consigo evitar a aversão que tem o meu pensamento ao acto de acabar.” (Fernando Pessoa, 1986)

Impossibilitada de ter um fim, a literatura é muda: tanto para quem a desvenda – nunca através da passividade televisiva – quanto para quem a desenrola. A comunicação é tão densa que não pode utilizar os sons, tal como a música. Porque toda imaginação em letras é envolvida pelo mistério primeiro, pela ausência de barulhos, pela explosão ancestral do universo que carregamos em nosso imaginário. Exactamente como acontece com o sigiloso crescimento dos vegetais.

“(…) a linguagem está sempre um pouco à frente do nosso pensamento, é sempre um pouco mais borbulhante que o nosso amor. É a mais bela função da imprudência humana, a jactância dinamogênica da vontade, aquilo que exagera o poder (…) Em quaisquer circunstâncias, a vida toma muito para ter o bastante. É preciso que a imaginação tome muito para que o pensamento tenha o bastante. É preciso que a vontade imagine muito para realizar o bastante.” (Gaston Bachelard, 2001)

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