Quando as velas apagam

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Eu carrego em meu ventre um sonho. É tão belo e tão grande que ultimamente tenho dificuldade em caminhar. Minha alma está toda imbuída por ele. Por vezes, sinto que não devo falar sobre isso às pessoas. Guardei-o até esse instante como um desejo de aniversário. Ninguém pode saber, senão não se realiza.

As velas do meu bolo já estão apagadas. Não dá mais para sentir o delicioso exalar da parafina. Decido, pois, ser a hora de confessar. Não sinto que energias diabólicas sejam capazes de infiltrar-se, nessa minha curta encarnação.

O inescrutável sonho meu é um devaneio de livro. Quero transformar minha virtual existência em um bloco de capa dura, contornos leves, páginas com orelhas.

Essa escrita que serei, não contém um romance com personagens redondos. Não sou Machado nem Guimarães. É qualquer coisa que navega mais solta, mais inconsciente e, quiçá, dantesca. Posso não chegar às cem páginas. Volume significa profundidade?

Fiz um ninho para esse meu livro. São inúmeras cordas de violão. Contudo, há uma maciez-algodão-doce na concepção do berço que possibilitou as cordas a deitarem tenras. Tive o auxílio de um músico maestro, na construção da morada. Ele as deflorou por mil anos, até que elas atingissem a maturidade dos humildes. Como soam bonitas, as notas do meu leito inventado!

Eu pouso sobre o refúgio arquitetado para as minhas letras. Acaricio as palavras com o calor de Juquehy, numa tarde inesperada de maio.

Pouco a pouco, vou me transfigurando. Sinto o sabor das árvores nos pés. Um papel opaco, grosso. E tão cheio de vida! A tinta está me tatuando inteira. Acordo a cada manhã com mais e mais versos nas mãos. Não é difícil reparar a encarnada cor em minha aparência. Meu mundo todo tingido em vermelho escuro. Néctar de uva, face rosada dos enólogos.

Que Deus ilumine minhas divagações! Meu Deus, ponha em meu caminho o espírito altivo do poeta das lesmas. Permita a mim ser batizada nos mares da claridade. Na transparência insuportável de Clarice.

Se um dia puder ensaiar sorrisos nos lábios de alguém, ai, terei alcançado a integridade. Se eu for capaz de recordar uma só pessoa! A minha poesia também é de pouca modéstia. Anseia lágrimas. Vislumbra só um leitor em comunhão com as minhas cóleras. As minhas confissões deixando de ser minhas, agarrando as unhas cósmicas da Humanidade.

Nesse dia, quando estiver enfim nascida, experimentarei a embriaguez primeira. Serei a única ébria pronta para a morte. E repousarei meu epitáfio no interior da livraria.

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4 Comentários

Arquivado em Textos meus

4 Respostas para “Quando as velas apagam

  1. Mari, fiquei chapada lendo esse seu texto. Lindo; parabéns.
    Ensaiei nem lágrima e nem sorriso e sim uma gigante abertura de olhos!

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  2. miriam

    Dadá

    Filha minha em que fonte andfaste bebendo tantas palavras, tão harmoniosas.Senti Clarice rindo, vi Manoel de Barros trocando contigo musgos e coisas inúteis,ouvi Guimarães conjecturando com colibris e correntezas tantas.
    Dadá, que lindo. Vi o parto do incriado tentando nascer através da forma redonda das palavras fechadas.
    Nasci junto,gerei contigo tantas transparências poéticaws. Te amo. Escreverás um dia, tudo o que meu coração se recusou?

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  3. Paula Vianna

    Fantástico!!!!

    Com muitas saudades!

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  4. Que assim seja! Saiba, sonhos servem em realidade para colocarmos em prática. Lindíssimo texto! Apareço sempre por aqui afim de exercitar a massa que tanto esta imbuída no cotidiano. É também uma forma de sentir-te perto.
    Desculpa se as vezes não escrevo comentários, mas é que me sinto tão menino, daqueles como os de Ziraldo para escrever em meio a perplexidade da beleza das palavras que escolhe para harmonizar tantos pensamentos e sentimentos. De certo porém, estarei na primeira fila, desejo autógrafos aos tantos.
    Beijos
    Te amo!
    Marquinhos

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