Rodinhas de bicicleta

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Negros e longos cílios molhados. Protegiam com a força e inquietude das águias os olhos marejados da pequena menina. Os cabelos presos, o biquíni, a manhã que ardia no Recife. Mas não havia nela o alvoroço do mar, a ânsia da água. Espreitava, triste, uma última vez. As gorduchas mãos cerradas, num mudo afago sobre o tecido borrachudo. Era a maneira infantil de perpetuar a existência em sua pele. Sentia o amputar das pernas.

Na esquina, os adultos. Esperavam o adeus. Até dava para sentir o deboche deles – aquele esquecer típico das pessoas mais velhas. Riam-se internamente. E toda criança percebe que a julgam menos habilitada, inexperiente.  O tio da pequenina, eleito por ela, aguardava impaciente. Nada entendia daquela partida:

 – Pronto! Agora você pode tomá-la de mim.

A saudade nunca chegou a habitar a miúda, depois daquele instante. Foi uma fração de segundos. Recordou-se do mar. O céu azulava seus pensamentos pueris, cobria-os com castelos de areia. A lembrança da chupeta caramelizava em seu espiríto. Mas não doía. Todo um doce tilintar encharcava o Universo. Sua primeira independência era enfim consumada.

Tempos depois, uma febre – as crianças são mais abertas – apoderou-se dela. Submergiu em pensamentos de morte, aquela menina. Entre delírios e impotência. Implorava que delebassem a enfermidade de suas juntas.

Como era lindo ter a mãe a preparar o leite bem quente, a canela em superfície, uma colher mergulhada em mel – esse ser feito da robustez açucarada. O segredo da receita só existia no epílogo. Uma, e só uma, colher de conhaque. Sua dependência era agora sinônimo de cura.

Um dia, porém, a temperatura  se elevou. O corpo todo a tremer. Encontrava-se sozinha. Não havia quem seria capaz de matar o silencioso exaspero. Podia, entretanto, resguardar sua alma. Nada havia de ser, aquele ardor nas pálpebras. Nada havia de ser, aquela calidez no hálito. Nada havia de ser…

Só lhe era preciso estar em posse daquela unção. Sabia tão bem aquela receita. Pôs, estufada em coragem, a panela no fogo. Ai meu Deus, como foi bom deleitar-se em si mesma! E pensou como um dia poderia ser ela a protagonista, a curandeira milagrosa. Sonhou com os filhos que dela tomariam a mágica poção. Sentiu livre, uma segunda vez. Insubordinada.

Só que a trajetória é óbvia. Vieram as mamas, doloridas e pequenas. A encardida obrigação do crescer. Ossos maiores que músculos, os amores envoltos em Platão. Fulguravam em seus lábios negações, desprezos e culpas.

A menina não mais podia ser voltívola de suas travessuras. Sua vida, como são as vidas humanas, transformou-se num esfuziante roteiro de cinema. Empanturrada sentia-se diante de personagens velozes, felizes, vergonhosos, inacabados.  Assustada pelas sombras, desejava eximir-se.

Estava farta das dores e dos remédios. Da pequenez que se apodera da íris, quando chora por horas seguidas. A memória, no entanto, fez surgir em seus poros, a terceira e grande emancipação. Ora mulher, ora criança, tudo absolutamente em confluência. Ah, suas tardes no parque! Sonhos dos seis ou sete anos. A imagem, obscenamente poética. Ela, à deriva. A longínqua dança das rodas. Os pedais em comunhão com o corpo. O medo. Haviam decidido que era hora de tirar as rodinhas da bicicleta. Acreditou na firmeza dos dedos beneméritos. Contudo, às costas, viu-se a pedalar com suas próprias pernas. E no chão esborrachou-se.

Desabou, mas, alheia ao fracasso, subiu novamente. E novamente acreditou que teria o suporte paterno. Em poucos segundos, ao olhar para trás, viu que era ela mesma a equilibrista.

Compreendeu, por fim, o valor da escora e da independência. As rodinhas propriamente ditas nunca mais estariam lá. Todavia, a nitidez vívida de sua promulgação. Porque passamos a vida a tirar essas rodinhas, a cair e experienciar uma autonomia triunfal.  

 

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