Patas de Aranha

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É. Seria improvável a mim iniciar qualquer devaneio com uma afirmação tão brutal como essa. Contudo, o “é” materializa-se como a única estrutura plausível. Porque se há permanência nesta vida, ela reside na música. Só a música é. A instantaneidade, a imediatez, o sossego. A melodia sussura ao ouvido e a pele se enche toda pelo ar que se inspira.  

As coisas, quando são, geralmente perdem o sentido. O destino tem a cristalização como morada. Para endereçar alguma carta a ele, basta buscar um lugar permeado por imensos blocos de gelo. A sincronicidade é bicicleta. Sua imagem só existe em movimento. E a música é inquilina do espaço inimaginável que há entre os dois. Esquina do devir e do agora.

Hão de me perguntar: onde então habita a plenitude? Guardada no paradoxo do instante. Na linha invisível que difere o erro fatal da perfeição. Será que todo erro sonhou contos de fada? Nada sabemos sobre a sua concepção. Muitas vezes julgamos que não houvesse amor. Estupidamente a aberração que se produziu supera o investimento celestial do orgasmo. O erro só existe quando há testemunhas.

No entanto, quando pensamos em música, o inexato, o incorreto, a falha, tudo o que se refere ao imperfeito pode atingir estado de graça, na harmonia do todo. A fragmentação em si carrega a razão de ser. A totalidade é delírio aos olhos do espectador mais atento. O bom ouvinte sabe vislumbrar as nuvens de matéria interestelar que há em cada nota.

Ontem fui apresentada às mãos poderosas de Vicente Amigo. Maestria é pouco para definir os sons e as conjecturas que são preciosamente encarnados em sua música. A palavra se encolhe toda, as composições inundam a sala. Por isso digo que, das artes, só a música transcende. Só a música pode ser e estar. E o tempo se cala. Chronos sente a iminência. Não há mais meios de tergiversar. Ausculta em quietude. E finalmente reverencia o homem que rompeu a fronteira entre o hoje e o sempre.   

Eu estou pasma e silenciosa também. Fugidias letras vão rapidamente sendo filmadas por meus olhares. Atônitos olhos. Vejo duas aranhas frente ao meu corpo perplexo. São os dedos de Vicente. Tecem com exatidão os sentimentos mais difíceis. Atingem em seda aquilo que o escritor é incapaz de traduzir. E de repente o sofá, o piano, as janelas, Lisboa… o mundo todo está coberto pelo tear. As aranhas sucubem à própria criação. A alma do artista agarra-se ao instrumento. Apaixonada, digo adeus à dicotomia sujeito-objeto. O violão e o violeiro são apenas um, mais uma vez desrespeitando as regras da natureza.

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