Retrato de Magritte

o_terapeuta_19361Eu era a varanda. Grande, larga, chão de mármore. O outono invadia a cidade e chovia. Coberta de lama e de folhas mortas. Havia discutido tantas vezes com Deus, naquele tempo. O amor me era um soldado desaparecido na guerra: cego, amputado ou entregue à terra.

Não precisei, Miguel, de mais do que cinco minutos para me pôr em lágrimas, diante de si. Um verdadeiro desabar monstruoso. Você ficou inerte, não se compadeceu, nem ignorou. Assistiu à tempestade que saia de mim e que me alagava por completo. O terraço órfão. Eu, a varanda.

Sua doçura na escolha das orações era de uma brutalidade desleal. Comparável somente ao sol do meio dia em pleno verão carioca. Secava, com a ousadia de um cavalo – porque eles são sempre indomáveis – quaisquer procelas.

E caminhamos juntos, ora deitados sob a crepuscular imagem do terapeuta. O meio. Indecifrável. Sempre no limbo entre o artista e o vagabundo. Entre Criador e criatura.

Outras vezes vimo-nos imersos em poesias de luz e calma. Você me colocou em seu colo e me afagou os cabelos. Acolheu como um pai a clareira que se manifestou em meio a minha cabeça. Aquela careca – de estresse, dizem – que me fazia sentir o que é ser rebento.

Juntos enfrentamos os dizeres do perdão. Aquele fatídico dia. Jurei nunca ser hábil para acreditar em um homem novamente. Mas você, homem, em alguns segundos mudou tudo. Virou minhas convicções de cabeça para o ar. Eram tão claras e tão fortes, meu Deus! Só que ser vítima, por mais que a existência nos jogue em meio a tantas fatalidades, não é apropriar-se. O títere é conforto com cordas presas à carne.

O ódio não é meu inquilino, Miguel. O perdão não tem raízes no catolicismo. A suculência de perdoar está em não dividir a culpa com aquele que nos maltratou. Perdoamos para não sermos cúmplices. Devolvemos o papel de protagonista àquele que o merece. Quantas vezes fingimos ser nossas as histórias encenadas por outrem!

Aprendi, deitada no divã, uma boa parte de meus defeitos e mecanismos de sobrevivência. Contudo, o ser consciente tem mais impotência que o ser ausente de si. O saber não nos modifica, nem traz as necessárias rupturas.

O óbvio se instala dentro de nós, mas não conseguimos abandonar as manias. Pincelamos as mesmas cores, mesmo quando possuímos mais tintas. A liberdade não preside na tela.

Andamos durante inesgotáveis horas a falar sobre minha necessidade de sedução. Precisei ser criança que envolvia. Fiz coreografias do Chico para encantar os adultos. Falava difícil e corretamente. Estudava e brincava sozinha, guardando tudo o que estivesse fora do lugar. Assim, sem me dar por ele, o embaimento assumiu propriedade adesiva. Grudou-se em minha alma.

E em terapia isso me foi iluminado. Discernir não é suficiente para alterar comportamento, tantas vezes sujo. Como a nuca é para os olhares atentos de um vampiro, a blandícia me foi deliciosa também. 

Como todo vício, compulsório, meu corpo jazia em abstinência. Retive homens e mulheres. Esperava descobrir qual canal de conexão era o melhor. Personalizava as conversas. Sorria para os estranhos na rua. Utilizava a voz mansa, quando me apetecia.

Sentia tanto nojo de mim mesma! Repulsa, raiva, ojeriza. Não havia controle. Bajulava as flores, para que elas me amassem. Mimava as crianças. Os velhos, ó, como afaguei sem limites suas carcaças com o intuito de obter aceitação…

E essa semana, Miguel, senti tudo isso ir embora. Eu disse adeus, meu querido mestre. Dei as costas para o navio vaidoso. Caiu sobre mim, inesperadamente, uma agonia gorda. De que vou viver agora?

Renunciei por amor. Mas o repúdio se infiltra. Por quê? Como é que a gente enjeita algo tão nosso e pode acordar no dia seguinte? Quando a fertilidade atinge o rompimento? Não há uma reencarnação para mim?

Agora, quando devaneio sobre um ser embalado em minhas malícias, sinto meus seios a secar. Não vou amamentar nada que não possa deixar crescer. Repulsa. Medo. Covardia. E junto com tudo isso, sinto-me só, sinto-me feia, sinto-me aterrozirante. Comecei um regime essa semana, para ver se o espectro reage melhor. Talvez o que me cobre possa ser mais fácil. Mutável. O olhar é mais antigo. Claro, não cortei de meu cardápio vinhos e queijos porque o masoquismo não me habita. Desejo jejuar noites em claro. Faquir de meu cerne. Sei que a beleza não mora no coração do outro. Ela existe?

 

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2 Comentários

Arquivado em Textos meus

2 Respostas para “Retrato de Magritte

  1. Eu li
    pensei
    ia te dizer
    não disse
    ia comentar
    não fiz
    ia então de volta
    e voltei a desistir
    e aí, que é o contrário de ia
    disse o que fiz
    por não saber dizer

    Curtir

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