É preciso estar nu

buber1Na literatura infantil, encontramos histórias que contam o isolamento do ser humano como um factor de impossibilidade da vivência de sua própria humanidade. O ‘menino-lobo’ não é um menino, mas um lobo em corpo de menino. Sendo assim, podemos facilmente chegar à conclusão de que se experimenta a humanidade quando entramos em contacto com outros seres humanos. O ‘eu’ só existe na relação, nunca retirado da presença. Nós nos consideramos pessoas ao incorporarmos verdadeiramente a noção do diálogo.

Essas palavras são validadas pela obra e pensamento do filósofo austríaco Martin Buber (1878-1965). Parece-nos simples e óbvio, a princípio. É claro que só vivemos na relação com os outros! No entanto, muitas vezes, experimentamos outro conceito de Buber: a relação ‘eu-isso’.

Por ‘eu-isso’, Buber caracteriza: “O EU da palavra-princípio EU-ISSO, o EU, portanto, com o qual nenhum Tu está face-a-face presente em pessoa, mas que é cercado por uma multiplicidade de “conteúdos” tem só passado, e de forma alguma presente. Em outras palavras, na medida em que o homem se satisfaz com as coisas que experiencia e utiliza, ele vive no passado e seu instante é privado de presença. Ele só tem diante de si objectos, e estes são fatos do passado”. (BUBER, 2001, p.14).

O autor nos mostra como acedemos ao mundo com base na experiência e utilização. Dessa forma, deixamos que os outros se constituam como meros objectos, capazes de serem utilizados por nós. A utilidade nas relações impede que exista o encontro. Quando eu penso naquilo que posso usufruir ao me relacionar, acabo por não enxergar com clareza o que está do outro lado. Não se vive, na relação eu-isso, a alteridade. O objecto, pois, contrapõe-se à presença. É descrito, lembrado, representado, reproduzido, nomeado, classificado, isolado, analisado, decomposto. O autor ainda vai além:

“Eis uma verdade fundamental do mundo humano: somente o ISSO pode ser ordenado. As coisas não são classificáveis senão na medida em que, deixando de ser nosso TU, se transformam em nosso ISSO. O TU não conhece nenhum sistema de coordenadas.” (BUBER, 2001, p.34).

Quando pensamos nas actuais propostas de multiculturalismo e Globalização, imediatamente devemos repensar Buber. Embora tenhamos dado passos largos em busca da compreensão das demais culturas que habitam o planeta Terra, através dos media electrónicos, por exemplo, em inúmeras ocasiões estamos a usar a palavra princípio ‘eu-isso’.

O suíço Jacques Hainard, antigo director do Museu de Etnografia de Neuchâtel, esteve em Lisboa para um colóquio sobre património imaterial. Corrobora, mesmo que sem nenhuma ligação directa com Buber, a utilização mascarada da diversidade cultural em tempos globalizados. Polémico e muito contundente em suas afirmações, o especialista em etnologia falou ao jornal Público (04/12/2008) sobre a problemática dos museus:

“Continuamos a ser nós quem decide o que é bonito e o que é que tem valor”. Para ele, o Ocidente também decide, através da farsa, que não quer lembrar-se do colonialismo: “Não se fala nisso, esquece-se, e a ideia passa a ser a de fazermos multiculturalismo, o diálogo entre as culturas. (…) Parece-me muito político e muito superficial. Não é fazendo música de outros países e comendo cozinhas específicas que nos compreendemos melhor. Talvez passemos por um bom momento, mas ficamo-nos por aí. Não acredito que esse tipo de manifestações seja muito profundo. Servem para termos uma boa consciência, mais nada. Para mim, a qualidade de uma boa etnologia é construir uma distância crítica e dizer precisamente que é muito difícil compreender o outro”.

O que vemos em várias exposições, actualmente, é um empilhar de objectos inanimados. Não há uma narrativa por detrás das paredes. Embora a iluminação seja perfeita, o objecto não entra em nosso imaginário. Não sentimos aquela civilização com nossas almas. Para Hainard, os museus são contadores de história: “O museu é um dicionário das culturas humanas. Os objectos são palavras e com eles é preciso construir um texto. Pôr objectos uns do lado dos outros não me interessa. Como aquelas exposições em que mostram uma estátua com uma placa que diz ‘Homem em pé com uma lança na mão direita’. O que é que isto me diz?”.

E não é apenas nas exposições desenhadas ao bel-prazer dos etnólogos que a palavra princípio ‘eu-isso’ se instaura em nosso quotidiano. Temos um vasto conhecimento utilitário. Podemos pesquisar todas as informações referentes a quaisquer culturas que povoam o planeta. No turismo, somos viajantes privilegiados. Podemos nos organizar e traçar os roteiros completos. Não obstante, as viagens que acabamos por fazer dizem respeito à confirmação. As fotos que vemos em nossas árduas buscas pela Internet se materializam diante dos olhos. Os monumentos ganham as cores. Os parques, as esquinas, os cafés onde se reuniam famosos poetas e intelectuais dos séculos passados estão ao alcance. Mas não nos permitimos caminhar pelas ruas, à procura do inesperado. Não mergulhamos nos esconderijos que se apresentam para nós, quando nos perdemos numa cidade.

A Globalização é uma possibilidade real de compreensão do outro. Contudo, a sociedade actual é líquida e ávida por novidades. Cada vez somos mais voláteis e imediatistas. Superficiais. Nossa ânsia de conhecer o maior número de pessoas, países, museus, comidas típicas, músicas regionais, literaturas locais é imensa. A profundidade é alheia à rapidez. É estrangeira ao tempo que dispomos para submergir em profundezas das infinitas culturas.

Devemos voltar a Buber para perceber o que poderia ser chamado de comunicação intercultural. O cerne da palavra princípio ‘eu-tu’. O ensinamento de Buber a nós dá-se na impossibilidade de classificarmos o outro. Os preconceitos devem ser postos entre parênteses:

“Entre eu e tu não se interpõe nenhum jogo de conceitos (Keine Begrifflichkeit), nenhum pré-saber, nenhuma representação; a própria memória se transforma no momento em que passa dos detalhes à totalidade (passa na unidade da presença). Entre o Eu e o Tu não há fim algum, nenhuma avidez ou antecipação (Keine Vorwegnahme). Todo meio é obstáculo. Somente na medida em que todos os meios são abolidos, acontece o encontro”. (BUBER, 2001, p. 13).  

Talvez seja demasiado utópico. O encontro suspenso no ar, desprovido das nossas ideias pré-concebidas. Encontrar-se sem pressupostos ou idealizações. Caminharemos milhares de desertos até essa sensibilidade ser alcançada. A Globalização pode até nos levar até este tipo de relacionamento. Há infinitos percalços nesse processo, não há dúvidas. O outro, por vezes, ameaça nossas convicções, valores, crenças. O estrangeiro é aquele que nos põe em xeque. Mostra-nos que os axiomas estão mortos. Escancara nossas feridas. Guerreamos quando discordam de nós.

A verdade, perto do outro, fica ténue. Todavia, se desejarmos tocar alguma forma de sabedoria, deixemos que outras culturas, outras línguas, outras histórias se apropriem de nós. Não como objectos de apreciação. Nunca como ISSO. O espírito precisa estar nu. E toda nudez remete à nossa fragilidade ontológica.

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