Sobre as quedas (e os equilibristas)…

 

Todas as vezes que leio ou assisto a um filme bonito, choro. Não, não é um choro desesperado, desses que a gente não consegue engolir ou extravasar. É um chorar mais infantil. Remete-me às caidas não dolorosas de infância que, puramente por instinto, abrimos as portas marejadas dos olhos. E, particularmente, não quero o socorro inútil da mãe aflita. Quero apenas sentir-me humana, por uma fração de segundos. As lágrimas são só minhas e não há um compartilhar com nenhuma figura maternal – é unicamente o amor entre mim e o artista em questão.

Hoje elevo a audácia de falar de amor. Foi um chamado, depois de ouvir as confissões sofridas de amigos homens. Ambos terminaram agora relacionamentos que foram muito bonitos. Os dois, misteriosamente, oferecem-me o mesmo discurso: “foi a mulher que mais amei em toda a vida, o que eu faço com esse transbordar de sentimentos?”. Eu reluto em aceitar a idéia do amor (maior). E disse-lhes: grandes são vocês. Estão a amadurecer. Ainda não se permitem admitir, mas assobiam lindamente o envelhecimento. É claro que o amor fica mais uniforme, mais nítido. Há a sensação de ser o imenso, o mais depurado, o mais vívido. No entanto – peço-lhes desculpas por expressar minha opinião – é apenas o amor próprio que pôde nutrir paixões tão fora do ordinário. Está apenas em um e em outro a grande falta. O peito desses meninos carrega um vazio apenas fértil. Nada mais há neles.

Todavia, é em Valquíria ou em Silvana que colocam seus afetos. Contemplam suas dores e as dividem comigo – ainda não sei bem o porquê de ser eleita! Retruco, quase de forma dissimulada – pois também já morri dessas anomalias – que a responsabilidade de amar é nossa, absolutamente egoísta. Se houve um fim, certamente essas moças nunca serão as mais adoradas. São parte de uma infinda escada de estrelas. São um degrau, na bela evolução deles como seres humanos. A carne grita, nesse instante: “Como ela pode ser tão cruel? O nosso amor não é destinado aos objetos de encontro? O que eu faço com esse rasgar que minha pele permitiu? Meus pulmões estão ressecados pelo pranto…”

Meus delicados amantes, suplico-lhes que tentem agüentar este texto até o fim. Não deixem que a queda busque o aconchego primitivo de vossas mães. Guardem esse mentiroso penar que tem memória em nossas inocentes lembranças. Aniquilem a história do príncipe e da besta. A princesa faleceu. A fera é uma luta simbólica, mora cá. É uma interna que vagueia em nosso manicômio de pensamentos.  

Deixem os loucos bailarinos dentro de vossas almas, ainda em ferida. Ouçam as vozes de línguas estrangeiras. As que fazem estranhas reuniões dentro de nós. Aquele sussurrar que dilacera. Ignorem meus conselhos que beiram à petulância. Deixem-me, contudo, fecundar em solilóquios as palavras. O momento em que partilhamos confidências, vocês me deram o tema. E eu invoco os Deuses Ancestrais para escreverem por meus dedos as impressões que vos trago. Extraiam da terra molhada o ininteligível sentido do fim.

Eu vos prometo que cabelos mais cheirosos e sorrisos mais brancos aparecerão. Formas mais eufônicas, talvez menos redondas. O neoplatonismo saiu de moda. Enquanto o amor não chega, novamente, suportem que vossa animalidade reine. A comunhão é colheita, precisa de tempo e paciência. Mas, por favor, não se iludam. É mesquinho demais! Contudo, a capacidade de atribuir ternura não é altruísta. E exatamente por isso podemos amar autores, compositores, malabaristas sem nunca sequer estarmos em posse de suas presenças… O amor reside na narcísica corda bamba, da qual vamos tombar e recomeçar, sempre um passo a frente. Mais grisalhos. 

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