As minhas meninas (mais trechos)

 

Porque você é a primeira e mais bela de todas: espelho da alma que desejo com uma robustez impetuosa. Doce e frágil, lembro-me de paranóicas quimeras que vivi ao imaginar um dia a sua ausência. Você que nada entende do que eu escrevo. Quiçá por ser loira ou talvez por procurar algo além nas minhas simples palavras. Não é tudo que provoca a dicotômica relação entre aparência e essência. Entendemo-nos tão bem que não há a necessidade de nos emaranharmos em textos. Nossa comunicação se dá de mãos em conchas, rodeadas pelas infinitas forças vindas dos protetores de Luz. E de você herdei o gosto pelo vinho. Bálsamo que tenho tomado com uma certa freqüência. O seu espírito, minha mãe, é feito de estrelas dionisíacas, não me restam dúvidas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

E a sua vinda deixou meu coração repleto de incertezas… Tristeza e contentamento, tudo misturado. Foi para você que roubei meu primeiro poema. Há em mim a certeza de que a sua chegada enobreceu minha carne, por inteiro. Primeiro por me apontar a beleza da ambigüidade. Depois por ser obrigada a tudo dividir. Deixei para trás a máscara rude de menina loba. Quantas piadas internas colecionamos! É a minha mais bela coleção de todas! E quantos olhares, gordos de cumplicidade. Alguns pulsos cortados, é claro. Porque viver às vezes fere mesmo. Mas são mutantes, esses pulsos cortados. Hoje nos mostram o charme das cicatrizes bem elaboradas. Dão a nós, irmãzinha, o alerta da melancolia sem sentido.

 

 

 

Sobrevivente do mesma tropa que eu. Tivemos alguns membros amputados nas batalhas ardilosas da adolescência. Mas, com uma força sobrenatural – mistérios são a parte mais bonita de envelhecer – eles tornaram a crescer. Mais fortes, mais definidos. Os músculos estão mais largos, as caminhadas aumentam em progressão geométrica em nossas existências. E há você aqui na minha idéia. A inútil incompreensão do seu não-adeus. Do seu recolhimento precoce, em meu último dia. (Preciso parar um instante). Só para fumar um cigarro, você me espera? Nem hesito em levantar. Sabemos do tempo de um cigarro e de toda a sua complexidade poética. A fumaça que limpa as nuvens fartas de tédio. Sinto falta de dividir minhas solidões consigo. Quantas vezes fui até a sua morada para encontrar meu colo? Irmã de alma, coração e cérebro. Aliás, quando você estiver aqui comigo, tomaremos juntas um cálice de novidades, decadências e literatura. Vem logo, amor!

Há você também, minha pequenina perseguida. Que acha meu amor displicente, vazio e distante. Você, que tem a docura mais contida, a agressividade mais inesperada, a disponibilidade de doação mais depurada que conheço. Foi a sua amizade que me ensinou a amar e me apaixonar todos os dias pelo Chico, a compreender o avesso da minha espontaneidade tresloucada. Você, organizada, prestativa, arrumada. Você compactada nos sentimentos, embora por dentro sejam gigantes deuses do Olimpo. Quantos abraços eu te roubei? Que apresentação de despedida mais linda, deste a mim. Que memória é essa, que você tem e teima em ignorar? Espero ter dado em você uma flecha certeira. Só envenenada de amor e aventura. Não quero seu estômago a reclamar do seu coração mais. Jamais.

Maninha: recordo agora aquele dia de fazer cópias dos seus documentos. Era um frio no ventre miscigenado ao inebriante sentimento de conhecer o mundo. E estava você aqui, há alguns anos. Como me fez falta! A minha melhor maquiadora, a minha conselheira de todos os momentos. Uma fada, capaz de virar de ponta cabeça quaisquer pensamentos pré-concebidos em futilidades! Dona da inteligência mais sensível que conheci. Do melhor de todos os cafés. Senhora de olhos de pôr-do-sol. Quantas madrugadas foram testemunhas do nosso pertencimento imediato! Como é bom saber-me da sua família. Mando daqui longas vibrações de borboletas. E imensos suspiros amarelos. Senti a soturnidade de não passar consigo a celebração do seu ano novo astral. Mas celebrei cá também. O grande milagre do seu nascimento.  

 

 

 

 

 

 

 

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3 Comentários

Arquivado em Textos meus

3 Respostas para “As minhas meninas (mais trechos)

  1. Vi Duek

    Assim como voce que esta longe, eu tambem estou dessa pessoa incrivel que acabou de citar..
    Não sou poeta, filosofo e muito menos escritor, mas em momentos que pensamos em nosso passado e queremos descrevê-los, acabamos sendo… Até mesmo meros romanticos amadores.
    Enfim mari, adorei seus textos e estou vendo que conheci a primeira pessoa que fara diferença no mundo nos proximos 10 anos podemos dizer.
    Peço desculpas por algo que não tenha a deixado feliz, mesmo não sendo próximo o suficiente (Yom Kipur passou mas mesmo assim nunca é tarde!)

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  2. Andando pela web, obviamente, não sei ainda por que, cruzo com seus textos, e curti muito o texto de sua mãe acima, fez ele meus pensamentos e sentimentos sobre meu pai, obrigado pelo doce alento anímico.

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