Ao inventar verdades

 

 

 

 

 A minha ausência cibernética deixa os dedos tímidos ao lançar esse texto. Escrito à mão, ele já me parece distante, já se encontra quase rudimentar… Sim, digo quase porque seria uma enorme mentira alegar que Paris não povoa mais meus pensamentos.

 

Escrever à mão é algo que perdi o hábito. Minha letra já está totalmente debilitada, depois de tantas teclas apreendidas pelos meus punhos. No entanto, neste horrível período de adaptação, é preciso ter a versatilidade de um ser camaleônico. Não posso deixar de escrever. A loucura ronda-me, insistente e sedutora.

 

Voltar a Lisboa depois de uma semana indizível em Paris me soa insuportável. Aparentemente insuportável. Tudo cá me é estranhamento. Exceto o anafalbetismo, tudo o que me circunda e que respiro dói.

 

Foi num sábado, enredado de esperança, que embarquei no avião. Já estava ciente da minha escala em Madrid. Não houve em mim nenhum tipo de desconforto. Para estar perto de quem se ama, na cidade do Amor, não pode haver mumunhas.

 

E subitamente, no trajeto insustentável entre a decolagem o pouso, deparei-me com um pensamento que há muito persevera minha estadia além mar: será que finalmente encontrarei a familiaridade almeijada por minh’alma? Muito fantasiei as palavras de minha mãe. Ensandecida pela cidade Luz, ela foi capaz de percorrer as ruas, em sua primeira visita, como se um sopro estivesse sempre ao pé do ouvido. Lágrimas teimavam em deixar seus olhos, tontos de estarem em casa. Eu infantilmente vislumbrei essa fantasia, ao aterrisar em Portugal.

 

Para a minha infelicidade, a cidade não me trouxe o aconchego de vidas passadas. Era apenas, como Pessoa, uma estrangeira. Pássaro assustado que cai do ninho. Frágil, frente à frigidez do povo, às duras palavras, ao sotaque incompreensível. Uma nação que teve o mais glorioso dos passados, mas que teme seu futuro, intocável. Não há gerúndios em Portugal: ‘estou a comer’, dizem. A língua parece ter sido congelada. Fóssil triste como as tartarugas.

 

Pois bem, voltando a Paris, pois é lá onde encontra-se minha memória agora. Adentrei as terras francesas com o imenso desejo de retornar à minha morada. Depois de pegar a mala, todo um desespero tomou-me conta: onde está o meu amado? Quase duas horas depois, o alívio! Não havia morrido, como minhas idéias obrigavam meu coração a sentir. Era apenas um atraso. Costumeiro. Eu já havia me esquecido dessa característica, irritante e inofensiva de sua personalidade.

 

A minúscula casa, colocou dentro de mim a urgência de descer as escadas e ir ao encontro da cidade da minha mãe. De bicicleta, como se um filme fosse minha própria vida, avistei a famosa torre. Ela piscava, saudando-me.

 

Chegamos, por volta da uma hora do novo dia, no apartamento do amigo russo. Tudo me era lindo e novo. O olhar primeiro foi meu grande companheiro de viagem. E de repente, posta em um emaranhado de línguas-bebidas e música, sentia-me aquecida por todo o ambiente. Sentei-me, envergonhada, só por um breve suspiro. Não há lugar para estranhezas, aqui.

 

E ao ouvir o som da Balalaica, instrumento da típica música russa, aconteceu aquilo que tanto esperava. O choro recém nascido, o choro de reconhecimento. Aquele som invadia todas as minhas coragens, entregues a Deus. Ah, minha ascendência polaca! A alma brasileira também pode ser alcançada a menos de quarenta graus.

 

Os dias subseqüentes não cabem em minha literatura. Les Invalides e o monumental túmulo de Napoleão. Quase trezentos degraus e ter a invasão de Paris pelos olhos, no Arc de Triomphe. Setecentos degraus de metal. Um elevador até o topo. Um medo que nunca havia habitado antes meu ectoplasma. A altura de duzentos e setenta e seis metros do solo. O mundo e La Tour Eiffel me diziam, enquanto eu tentava me apoiar em nuvens, embalada pelo iminente delíquio: ‘É Mariana, a sua pequenez insignificante…’

 

Tomar um vinho no Château du Versailles. A cada gole entornar a anistia. A nobre inutilidade da vida valia uma cabeça decapitada! Ter também a alma totalmente conectada aos egípcios extraterrestres, no Musée du Louvre. Poder morrer no mesmo instante em que meus pés pisaram o Jardin du Luxembourg. Dar um oi a Baudelaire, a Simone de Beauvoir, Sartre, Beckett, Julio Cortázar. Não encontrar Durkheim e ser absolutamente irrelevante… Encharcar-me de música no Champs de Mars. Encontrar a igualdade da Morte nas Catacumbas. E ver que não há morte do corpo na igreja da Rue du Bac. Ter vontade de trabalhar no Pompidou… Sentar no parque mais lindo do mundo e presenciar a ressurreição de um peixe. Ser testemunha de infinitas paisagens. Dormir e acordar abraçada pelo Amor. Andar pelas glamourosas ruas e isso simplesmente bastar ao espírito. Uma vida vale uma semana em Paris.

 

Tomar vinho e fazer um sarau, apinhada por pessoas de todo o Planeta Terra. Aprender o que verdadeiramente significa ser cidadão do mundo. Realizar o sonho sonhado e este ser ainda mais belo do que em mim foi devaneio. Ouvir russos cantando em Português e ver que eles pertencem à minha terra. Tanto quanto eu pertenço à Polônia? Não posso dizer… Esse é o grande segredo literário. É o grande poder da palavra. Sentir ou inventar felicidades. Inventar sincronicidades é o dom-ápice do poeta. O que é genuíno em liberdade. A invenção também é verdade para quem escreve”.

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