Ausência

 

Às vezes demora-se anos para entender o mais óbvio que há em nós. Só hoje verdadeiramente apreendi minha paixão pela Fenomenologia Existencial. Só hoje, com cicatrizes na vista, deixo meu estrabismo intelectual de lado, para ouvir o que em mim foi chamado. Só hoje meu peito é todo aberto à amplitude dos sentidos.

Wilson Batista sabiamente escreveu um dia: “Eu sou assim, quem quiser gostar de mim, eu sou assim. Meu mundo é hoje, não existe amanhã pra mim”. Não sei se ele teve alguma troca com a terrível corrente filosófica, ou se as coisas-mesmas estão ai para todos, basta querer desanuviá-las. Só importa que ele tem razão. Eu grito ao mundo! É hoje.

“Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso”, retruca Clarice. Tenho essa absoluta convicção, pois é a minha insana ansiedade que fez ecoar em mim. As doces frases só circulam quentes em meu sangue porque dizem acerca do presente. O instante é o único capaz de congelar a lembrança. Ah, as Horas! Que criaturas equivocadas são as horas! Os minutos, apesar de se saberem menores, de terem obrigação com a humildade, também se conhecem muito pouco. Os dias, reis de feudos folclóricos! Freqüentemente são ridicularizados nos meus diálogos. Merleau-Ponty zomba da banalidade do tempo. Bachelard condena os meses ao calabouço. Só o aqui (agora) é Olimpo para nós.

Corro gravemente o risco de ser olhada como alguém extenuante. Todavia, meu atual instante dá de ombros para os olhares. Minha essência ironiza a tranqüilidade. Meus vícios estão em festa dentro de mim. São obviedades de viver intensamente o já.

E, quiçá, todos os amantes fenomenólogos sejam espíritos de uma incansável impaciência. Ou mesmo pode ser que eu não suporte o futuro e o passado. No entanto, não vivo cores pastéis. Sinto odiosa ojeriza daqueles que aceitam-se títeres do relógio. Careço de re-significar o que se foi e de lançar vibrações poderosas para o que ainda não é.      

Ando amarga mesmo. Esse dia, quase no fim, ardeu tanto, mas tanto… Revoltas palavras brotam sem deixar meus pensamentos floridos serem protagonistas. Há noites nas quais é preciso rebentar a ira e colocá-la no colo. Dar nome ao negro gosto. Saboreá-la, mesmo com incomensurável repúdio.

Sinto-me enferma por não poder contemplar as vicissitudes. Amarrada estou à mortalha da espera. Enfraquecida pelas horas, minutos, segundos e meses.  Desvairada pela nostalgia. Enojada por não poder viver a plenitude. Tenho a alma anorética, impossibilitada de caminhar. O instante, que tanto me nutriu, esfuziou-me com a sua ausência.

As trêmulas mãos, exauridas dos silêncios, clamam pela aparição do templo. Onde foi parar a minha pertinácia? Deixei-a cair? Estilhaçou-se? Como posso reavê-la?

Perguntas retóricas e estúpidas. Sei da data e da hora em que meu amado instante partiu. Conheço seu paradeiro. Ouço sua voz, distante e leve. Vagarosa, como seus passos e sorrisos. Já estive em alguns dos lugares pelos quais viajou. Meu instante, para desespero meu, está nos delírios dos pensadores. Acomoda-se na cabeceira, próximo à minha fronte. Posso buscá-lo, nas letras rebuscadas. Eu o identifico, na narrativa dos profetas. O raciocínio facilmente entrelaça-se com ele. Porém, o verdadeiro instante – aquele vivido – não está ao meu alcance. Preciso de outro ser humano em complexa sincronicidade comigo. Porque instante não é só presente, é presença.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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2 Comentários

Arquivado em Textos meus

2 Respostas para “Ausência

  1. Flavio Motta

    Mariana, continue escrevendo. As palavras que saem da sua cabeça merecem outras moradas. Merecem outros significados e povoar outros dilemas. Suas idéias, suas neuras, seus defeitos são muito bem vindos!!! Parabéns por este seu novo renascimento, parabéns por sua coragem de tomar caravelas extratemporais às avessas. Boa viagem nos mantenha informados, instale o skype se conecte menina.

    Beijos

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  2. gostei das palavras, pq, gosto de quem escreve pela inquietação.

    Escrevo pelo surto

    Escrevo pelo surto de não ser
    coerente, sociável, saudável,
    equilibrada, útil.

    Fernanda

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