Ostracismo

 

 

 

Não! Não é! Juro que não! Não quero exaltar a estranha e intrínseca submissão à imortalidade, presente em cada penugem de nossas carnes humanas. Não é o calor dos aplausos, recheados pelo narcisismo revelado. É outra coisa o que incomoda os meus dedos, desde sábado à noite. São outros sopros que me tomam as veias e me condicionam a exprimi-los. São fragmentos de outra jornada que me colocam insone. São delírios febris que estarrecem meus ouvidos exaustos. Não é simples capricho… Eu ainda não sei do que se trata. Esse texto não me deu tal liberdade… Ainda não.

 

E deixar-me-ei guiar por essa imaculada incompreensão que me tocou as lágrimas naquele sábado. É preciso ser dito. Eu o farei. Ainda tenho tanto medo dos lugares que meu pensamento murmura. Espero nunca me adaptar. O conforto é inimigo mortal das palavras. 

 

Só precisei de um breve instante para emendar os velhos óculos de minha irmã. Eu sempre detestei os óculos e as lacunas de Monet que ele deixa passar. Mas minha meditação, aspirante à psicografia, necessita de óculos. Porque suporto menos ainda a burocracia das lentes de contato, que ferem os olhos quando você se põe a chorar. É absolutamente inaceitável para mim a ingratidão dessas gelatinosas. Ainda não sei se esse fio de luz que se desvela vai emocionar. Todavia, é imprescindível aconchegar os grandes abismos fortuitos.

 

Sem maiores delongas, estou imensamente indisposta com o fastidioso tema que me ronda. Em breve estarei totalmente absorta. Ainda não.

 

E é esse ainda-não que me apavora há dois dias. Esse ainda-não que se apodera das rezas de mães mais crédulas, eternamente à espera dos milagres tolos. O ainda-não que está incrustado na fumaça dos cigarros. O ainda-não sentado à mesa de bar, a ouvir o fantasma vacilante do sambista. Esse atordoante sentimento que criou – sem pedir licença – musgos dentro de mim.

 

Tenho um amigo-irmão que é assim. Faz parte dos lindos penhascos das infinitas possibilidades. Não as agarra pelos braços, no entanto. É genial. Ele compõe músicas secretas, daquelas que dão mãos aos nossos sentidos e fazem festa na intimidade das orelhas. Sua melodia é algo tão sublime que precisaria retaliar uma parte de seu cérebro para descrevê-la verdadeiramente.

 

E a chuva se sobrepunha soberana sobre nós, nesse sábado que passou. Apesar de todas as conversas que tenho com Deus, para deixar o fim de semana em paz, não tenho obtido muito sucesso. Dessa vez Ele tinha razão.

 

Quase como uma criança que ganha uma surpresa em plena quarta-feira, eu vi esse meu amigo ir buscar o violão, nos fundos da sua casa. Foi uma sensação que inebriou os músculos congelados.

 

As canções, uma por uma, iam navegando lucidamente por entre os pingos magistrais. Desviavam os mais avantajados, como se pudessem cessar o fogo da ira de Deus. Abriam-se para o céu e abriam-me também. E eu chovia junto. Estava encharcada.

 

Nem o entorpecimento provocado pelo vinho e pela deprimente condição daquele sábado seriam capazes de diminuir sua voz. Ele cerrava as pálpebras. Assim podia concentrar-se inteiramente, compactar toda a sua força nas cordas da voz e do violão. A chuva, enfim, cansou de competir. Estava esgotada.

 

O que eu não consigo entender e que me inunda de pungência é saber que esse meu amigo ainda não é famoso. Suas músicas são navalhas até para os ouvintes mais indiferentes. Porque ele dilacera as nossas defesas mais fortalecidas e põe nossa alma a chover. Não aceito seu ostracismo! Por que ele ainda-não é? Por que não o descobrem, meu Deus?

 

Desde então trago comigo a entediante companhia do ainda-não. Pensei em quantas pessoas eu conheço que ainda-não são, ainda-não foram. Refleti acerca dos amores ainda-não vividos. Embeveci-me em exílios. A injustiça reina próxima dos apaixonados músicos com quem semeio versos. Paira uma tristeza em meus punhos. Essa doida vontade de clamar, implorar pelo reconhecimento merecido.

 

Um vazio engoliu subitamente minha capacidade de apreensão. Fiquei inerte. Paralisada diante da minha cínica impotência. Às vezes sentir-se estátua também ajuda a transcender. Decidi. Tudo o que estiver ao alcance dos meus esforços para divulgar essas pessoas-ainda-não, eu me sujeito.

 

Não deixarei para os escafandristas a terrível descoberta. Prometo, através das minhas pequenas e raras divagações, lançar esplendorosos holofotes.

 

Saiam de seus impiedosos esconderijos, corajosos artistas! Venham ao meu encontro! Abandonem as conchas, falsas moradas de pedra! O lar de vocês é o Universo! Não permitam que a sedução das gavetas os oprima! Venham, acompanhem-me! Não me deixem só nessa insólita tarefa.  Tenho sede! Onde estão vocês? Onde Deus os expatriou? Seres enfeitiçados pelo doce fardo da Arte, uni-vos!

 

 

(…)

 

 

(Bom, enquanto espero, observo em repouso esse texto. Durma. Envelheça mais um dia. Você também ainda-não está pronto.)

 

 

 

 

 

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