Teresa em mim

 

 

Nunca tive a ignorante pretensão de pautar minha subjetividade em alegrias vãs. Amo a felicidade. Enxergo-a como uma doce e jovem estrela cadente. Causa saborosos e delicados enlevos nas idéias da gente. Paralisa os instantes, dá a cor e as tonalidades mais preciosas para os olhares. É um amanhecer que inunda a nossa alma.

Contudo, eu já sabia, desde pequena, que carregava certo gosto pelas tristezas cotidianas. É um segredo meu que desvelo aos poucos, à medida que as pessoas me conhecem. Com certeza meus grandes amigos, ao lerem esse texto, esboçarão sorrisos logo no início: eles sabem disso melhor do que eu.

Compreendo a tristeza como inerente ao ser humano e particularmente a mim. O sofrimento sempre me foi muito esclarecedor e essencial. Entendo-o como um banquete para o aprofundamento do eu.

Suponho que o padecimento primeiro da minha vida foi amor… Os personagens e fatos envoltos são absolutamente irrelevantes. As mudanças inauguradas dentro de mim, não.

Uma senhora de cabelos ralos e brancos. Usa um manto que a cobre por completo. Tem aqueles olhos envelhecidos muito antes do resto do corpo. Chama-se Teresa: é assim que a minha tristeza pode ser descrita.

Uma mulher de casca frágil. Quando posso mergulhar dentro dela, sei que carrega a vitalidade das paixões adolescentes. Forte como uma montanha de neve.

Teresa joga búzios e interpreta tarô com a minha carne. É professora de história. Materializa verdades irrefutáveis e vislumbra, emudecida, os caminhos mais míopes. Põe-me os óculos e retira-me de cena. Teresa é a minha grande salvadora.

É claro que tudo isso deve parecer uma alucinação lisérgica para quem lê. Não se assuste ainda. Deixe-me enunciar porque respeito e ouço a voz dela dentro dos meus ossos.

Outro dia retirei da sala um livro de Lya Luft. Chama-se “O Lado Fatal”. Era domingo, dia que Teresa mais trabalha. O vazio cortava-me os pensamentos. Comecei a ler.

Em poucos minutos eu tinha o pulmão comprimido pela asfixia das lágrimas. Lá estava minha vidente, mais uma vez, a me fazer companhia. Mastiguei cada palavra, saboreando o incalculável esmorecimento que havia. Em apenas uma hora já voltava à biblioteca, para guardar a dor de Lya. Sentia-me inexplicavelmente mais velha.

O livro é um desabafo. Ela escreveu depois que Hélio Pellegrino, seu amado, morreu. São poemas assustadoramente amargurados. Aquelas páginas são deserto. Deus não estava lá. Só havia Lya e sua indizível prostração. Eu e Teresa.

Foi então que aconteceu em mim esse texto. Eu precisava advogar em favor da melancolia. Fora da obviedade que se instalou no mundo auto-ajuda de hoje, era-me caso de vida ou morte apresentar minha defesa. Senti-me uma leoa, pronta para doar minha vida aos filhotes. As pessoas necessitavam conhecer essa senhora tão sábia.

Não entendo porque se pode fugir ou ignorar a Tristeza. É totalmente incabível para mim não admirá-la e agradecê-la. É a responsável por metade das grandes lições da vida. Nosso outro grande mestre é o Amor. 

Selecionei algumas aulas que tive com a idosa criatura para reiterar meu sentimento por ela. A primeira delas é uma lição aquática. Quando não sabemos a profundidade da piscina – e estamos submergindo – nosso ímpeto natural é tentar voltar à superfície. Todavia, se não formos até o fim, fica muito mais difícil retornar com agilidade. O fundo dá ao mergulhador o coração da água. A dor é feita de natação.

Outro curso que assisto, ministrado por Teresa, ainda não acabou. Mesmo assim posso compartilhar algumas raras colocações que internalizei. É o desapego primordial. A matéria se tornou suntuosa quando ela acompanhou um querido professor meu. Era uma aula sobre o Adeus. Dificílima. Lembro-me como se o tempo fosse incapaz de amarelar minha memória: “Você pode ir embora agora, porque eu te amo”.   

Relutei em aceitar aquelas palavras por muito tempo. Imensurável é a dor da partida. Como a separação poderia ser característica do amor? Que espécie de monstros eram aqueles dois? Como chegaram ao ponto de exprimir esse absurdo?

Depois de alguns minutos suspensa, voltei a mim. Comecei a chorar muito. (Eu gosto de chorar porque meus olhos atingem o verde. Ficam cegos de claridade. É bonito.)

Lembrei das vezes que estou para acabar um livro e passo a fingir que ele não mais existe. Nunca estou preparada para dar adeus aos personagens. Eles, que passaram dias e noites a dormir em meu leito. Já os sinto como parte da minha residência. Como é que posso deixá-los ir?

A curiosidade, como se sobrepõe ao carinho, faz-me então devorar, sem a menor piedade, as últimas e doloridas páginas. Teresa põe-me em seu colo, afaga meus cabelos e me dá goles de velhice. E mesmo sem a presença manifesta, o espectro de Miguilim é lareira dentro de mim.

O último ensinamento que vou tornar palavra também foi aula em conjunto. Dessa vez com Gianetti. Minha afável e querida anciã pôs-se a discutir com ele a verdadeira fórmula da felicidade. Aprendi que não podemos ter fé nas sedutoras pílulas. Temos que tranqüilizar o espírito, ávido de novidades, e aceitar a construção, tijolo por tijolo. Felicidade é uma morada eternamente inacabada, incessantemente em reformas e aperfeiçoamentos. Não é adição. É cara.

E agora vem o questionamento: quando posso então saber se um módulo chegou ao fim? É muito simples! Vejo um novo cabelo branco, um rabo de cometa, ensaio novos devaneios. A sensação de missão cumprida usurpa a minha realidade…

E caminho com Teresa pelos bosques, pelas refeições exageradas, pelas músicas celestes. Ela está comigo nos crepúsculos e nasceres de sol. Vamos abraçadas pelas tardes chuvosas e frias, pela saudade das épocas áureas, por poetas e pintores fenecidos. Porque não fujo dela nem a escondo, aceito-a. A inexperiente menina vai mostrando, pé ante pé, os caminhos tortuosos. A encanecida erudita propaga instransponíveis passagens secretas. Ébria de poesia, abre-me as janelas. Avisto as formas de outra velha conhecida minha. Na casa de Teresa, às vezes, encontro-me com a inspiração.

 

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4 Comentários

Arquivado em Textos meus

4 Respostas para “Teresa em mim

  1. Adorei o texto.

    De quem é o quadro?! MARAVILHOSO!

    Beijos querida!

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  2. Delicioso o texto!

    De quem é o quadro?! MARAVILHOSO!!

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  3. Dôra

    Pô!
    Bem diz o ditado, velho e sábio: “Filho de peixe…”
    Preciso ser vidente para prever que serás escritora?
    Parabéns, querida!
    Beijão,
    Dôra

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  4. Luiza

    Fez-me lembrar as estações da vida vivenciada pelos orientais: primavera, verão, outono, inverno….são ciclos da vida as emoções também, temos de oferecer espaço para elas poderem ser, nos tocar e enfim vivencia-las.

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