Arquivo do dia: agosto 8, 2008

Teresa em mim

 

 

Nunca tive a ignorante pretensão de pautar minha subjetividade em alegrias vãs. Amo a felicidade. Enxergo-a como uma doce e jovem estrela cadente. Causa saborosos e delicados enlevos nas idéias da gente. Paralisa os instantes, dá a cor e as tonalidades mais preciosas para os olhares. É um amanhecer que inunda a nossa alma.

Contudo, eu já sabia, desde pequena, que carregava certo gosto pelas tristezas cotidianas. É um segredo meu que desvelo aos poucos, à medida que as pessoas me conhecem. Com certeza meus grandes amigos, ao lerem esse texto, esboçarão sorrisos logo no início: eles sabem disso melhor do que eu.

Compreendo a tristeza como inerente ao ser humano e particularmente a mim. O sofrimento sempre me foi muito esclarecedor e essencial. Entendo-o como um banquete para o aprofundamento do eu.

Suponho que o padecimento primeiro da minha vida foi amor… Os personagens e fatos envoltos são absolutamente irrelevantes. As mudanças inauguradas dentro de mim, não.

Uma senhora de cabelos ralos e brancos. Usa um manto que a cobre por completo. Tem aqueles olhos envelhecidos muito antes do resto do corpo. Chama-se Teresa: é assim que a minha tristeza pode ser descrita.

Uma mulher de casca frágil. Quando posso mergulhar dentro dela, sei que carrega a vitalidade das paixões adolescentes. Forte como uma montanha de neve.

Teresa joga búzios e interpreta tarô com a minha carne. É professora de história. Materializa verdades irrefutáveis e vislumbra, emudecida, os caminhos mais míopes. Põe-me os óculos e retira-me de cena. Teresa é a minha grande salvadora.

É claro que tudo isso deve parecer uma alucinação lisérgica para quem lê. Não se assuste ainda. Deixe-me enunciar porque respeito e ouço a voz dela dentro dos meus ossos.

Outro dia retirei da sala um livro de Lya Luft. Chama-se “O Lado Fatal”. Era domingo, dia que Teresa mais trabalha. O vazio cortava-me os pensamentos. Comecei a ler.

Em poucos minutos eu tinha o pulmão comprimido pela asfixia das lágrimas. Lá estava minha vidente, mais uma vez, a me fazer companhia. Mastiguei cada palavra, saboreando o incalculável esmorecimento que havia. Em apenas uma hora já voltava à biblioteca, para guardar a dor de Lya. Sentia-me inexplicavelmente mais velha.

O livro é um desabafo. Ela escreveu depois que Hélio Pellegrino, seu amado, morreu. São poemas assustadoramente amargurados. Aquelas páginas são deserto. Deus não estava lá. Só havia Lya e sua indizível prostração. Eu e Teresa.

Foi então que aconteceu em mim esse texto. Eu precisava advogar em favor da melancolia. Fora da obviedade que se instalou no mundo auto-ajuda de hoje, era-me caso de vida ou morte apresentar minha defesa. Senti-me uma leoa, pronta para doar minha vida aos filhotes. As pessoas necessitavam conhecer essa senhora tão sábia.

Não entendo porque se pode fugir ou ignorar a Tristeza. É totalmente incabível para mim não admirá-la e agradecê-la. É a responsável por metade das grandes lições da vida. Nosso outro grande mestre é o Amor. 

Selecionei algumas aulas que tive com a idosa criatura para reiterar meu sentimento por ela. A primeira delas é uma lição aquática. Quando não sabemos a profundidade da piscina – e estamos submergindo – nosso ímpeto natural é tentar voltar à superfície. Todavia, se não formos até o fim, fica muito mais difícil retornar com agilidade. O fundo dá ao mergulhador o coração da água. A dor é feita de natação.

Outro curso que assisto, ministrado por Teresa, ainda não acabou. Mesmo assim posso compartilhar algumas raras colocações que internalizei. É o desapego primordial. A matéria se tornou suntuosa quando ela acompanhou um querido professor meu. Era uma aula sobre o Adeus. Dificílima. Lembro-me como se o tempo fosse incapaz de amarelar minha memória: “Você pode ir embora agora, porque eu te amo”.   

Relutei em aceitar aquelas palavras por muito tempo. Imensurável é a dor da partida. Como a separação poderia ser característica do amor? Que espécie de monstros eram aqueles dois? Como chegaram ao ponto de exprimir esse absurdo?

Depois de alguns minutos suspensa, voltei a mim. Comecei a chorar muito. (Eu gosto de chorar porque meus olhos atingem o verde. Ficam cegos de claridade. É bonito.)

Lembrei das vezes que estou para acabar um livro e passo a fingir que ele não mais existe. Nunca estou preparada para dar adeus aos personagens. Eles, que passaram dias e noites a dormir em meu leito. Já os sinto como parte da minha residência. Como é que posso deixá-los ir?

A curiosidade, como se sobrepõe ao carinho, faz-me então devorar, sem a menor piedade, as últimas e doloridas páginas. Teresa põe-me em seu colo, afaga meus cabelos e me dá goles de velhice. E mesmo sem a presença manifesta, o espectro de Miguilim é lareira dentro de mim.

O último ensinamento que vou tornar palavra também foi aula em conjunto. Dessa vez com Gianetti. Minha afável e querida anciã pôs-se a discutir com ele a verdadeira fórmula da felicidade. Aprendi que não podemos ter fé nas sedutoras pílulas. Temos que tranqüilizar o espírito, ávido de novidades, e aceitar a construção, tijolo por tijolo. Felicidade é uma morada eternamente inacabada, incessantemente em reformas e aperfeiçoamentos. Não é adição. É cara.

E agora vem o questionamento: quando posso então saber se um módulo chegou ao fim? É muito simples! Vejo um novo cabelo branco, um rabo de cometa, ensaio novos devaneios. A sensação de missão cumprida usurpa a minha realidade…

E caminho com Teresa pelos bosques, pelas refeições exageradas, pelas músicas celestes. Ela está comigo nos crepúsculos e nasceres de sol. Vamos abraçadas pelas tardes chuvosas e frias, pela saudade das épocas áureas, por poetas e pintores fenecidos. Porque não fujo dela nem a escondo, aceito-a. A inexperiente menina vai mostrando, pé ante pé, os caminhos tortuosos. A encanecida erudita propaga instransponíveis passagens secretas. Ébria de poesia, abre-me as janelas. Avisto as formas de outra velha conhecida minha. Na casa de Teresa, às vezes, encontro-me com a inspiração.

 

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Entre as árvores

 

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Estou um tanto obcecada com a idéia de inveja. A princípio e para causar uma sensação indigesta na leitura, tenho inveja daqueles que têm pequenos cadernos e canetas em suas bolsas. Eu precisava ter chegado um momento antes para não perder a espinha dorsal deste texto…

Tenho pensado muito nesse tema e há tempos ensaio seus contornos em papel. A idéia de dissertar sobre algo tão humano e tão inexplicável é tarefa para poucos. Eu, metida desde pequenina, dou-me ao luxo de navegar suas entranhas e de expor minha opinião. Quero logo que a idéia desocupe minha cabeça, para que eu possa pensar em coisas mais bonitas.

Recolhi, ao longo desses dias, todos os fragmentos em que a espaçosa dita cuja estava aqui, dançando por meus pensamentos. Quais eram as minhas invejas? Quais eu era inapta a compreender?

A inveja mais doída que eu tenho é de não ser uma pessoa zen. Venero aqueles que vivem realmente em cumplicidade total com o Cosmos. Não falo de nada parecido com neo-hippismo burguês – defectível e repugnante. Falo de Manoel de Barros, grande companheiro das formigas. Desvenda a Via Láctea através de um ninho. Proprietário de uma profundidade exageradamente simples. Gênio.

Se eu fosse descrever todas as minhas invejas literárias, não poderia mais fazer nada – e não teria nenhum sentido para alguém que as lesse. Então, genericamente, tenho inveja dos versos sangüíneos, das palavras exóticas pinceladas no lugar preciso da frase, das vírgulas galopantes e de devaneios de nudez. Olho todos os artistas humanos e os reverencio. Perto deles sou apenas um adulto trôpego, tentando engatinhar com destreza.

No que diz respeito ao humor também posso confessar. Morro de inveja das pessoas que, sem o menor esforço, sem arquitetura ou planejamento minucioso, conseguem ser engraçadas. É um milagre para os ouvidos. Levaria as indústrias farmacêuticas à falência. Como não posso sê-las, busco estar sempre perto delas, grandes bálsamos para o coração.

A inveja nada mais é do que pretender o que nos falta. Depositamos a cura naquilo que o outro é senhor. Só que, no momento de senti-la, seria impossível possuir o atributo cobiçado. A inveja é gula de engolir os pequenos trejeitos de alguém, com uma voracidade digna dos consumidores obesos de fast-food.

Não suporto conceber a inveja de outra pessoa. Inteira. Como é possível desejar um rosto que não lhe pertence? Imagine-se olhando no espelho e, exasperadamente, não achar um traço sequer que lhe pareça familiar. Também há pessoas que têm inveja dos relacionamentos dos outros. Como podem se sentir diminuídas por laços que são protagonizados por terceiros? Não entendem que só sendo elas mesmas poderiam vivenciar uma completude?

Se eu sou uma amendoeira, posso admirar as flores do Ipê Amarelo. No entanto, estou absolutamente impossibilitada de ser Ipê. Por isso preciso resgatar todos os nutrientes da minha terra – aqueles pequenos duendes que constituem a minha alma – e tentar ser uma amendoeira fortalecida. Necessito de raízes profundas e ao mesmo tempo serenas, para agüentar o desapego do outono e a renovação subjacente do inverno.

É esse ódio de não ser um ipê que estremece as relações humanas. Ao invés de olhar para as incríveis e inenarráveis possibilidades da amendoeira, eu discuto com Deus sobre flores amarelas. E grito a ele: “Também poderia ser um Pau Brasil! Por que sou obrigada a conceber esses inúteis frutos?”

Pode parecer muito engraçado, quando olhamos figuradamente para essa imagem. Todavia, eu vejo estilhaços de inveja por todos os cantos onde passo. Desvio meu peito daqueles que se apresentam mais imponentes, mais nítidos, mais endurecidos, fatais. Sei que muitas vezes sou atingida por outros projéteis, travestidos de doçura e colo. Minha única defesa é tomar posse de uma atenção que flutue e que invada as entrelinhas.

E tenho um segredo para desamarrar as minhas próprias concupiscências. Vivo o Ipê, o rosto bonito, o relacionamento perfeito, a felicidade plena? De forma alguma. Se construo um personagem dono de um talento único, é de lei abrir mão de todas as outras dádivas que não estavam no solo, no instante em que ele foi fecundado. Mesmo assim, outros personagens virão, ávidos de sonhos e deficiências, exatamente como deve ser.

Confesso, contudo, que eu queria mesmo era ser um Chorão. Porque ele é a mais bela pintura da melancolia despretensiosa.

 

 

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