Mizebeb & Nonniel

 lei

 

 

O início desta fábula necessita de uma explicação: ela foi concebida no maior calor dos séculos, a bordo de um carro quase parado. No entanto este fato não é o mais curioso, nem estranho dessa concepção. Sua inspiração veio de um filme piegas, previsível, um verdadeiro plágio cinematográfico! Mas a vida, grandiosa, não deixa que as inspirações morram, nem mesmo com toda a mediocridade terrestre. A poesia guerreia, ultrapassa, atravessa, rompe e rebenta na solidão das grandes mesmices. Ela sempre sabe como burlar as regras e reagir a tudo – afinal de contas, de qual planeta você acha que a poesia veio?

Sem maiores delongas, essa história é (como quase todas o são) uma história de amor. Um amor que desrespeitou ordens divinas. Um amor que uniu um anjo a uma princesa…

         A princesa Mizebeb há muito não governava reino algum. Era uma princesa sem pátria, sem súditos, sem coroa. A única coisa que ela ainda possuía do seu status de realeza eram lindos sonhos de vestido. Nada mais. Nada menos. O reino da princesa fora destruído muitos anos antes, quando ela ainda era uma exímia amazona. Como acontece nas histórias clichês, a princesa foi obrigada a passar por uma provação, que lhe custaria a incapacidade da ignorância. E felizes são aqueles que olham para as coisas, mas não as vêem!

         Num universo quase paralelo, vivia Nonniel. Era um anjo consagrado por sua bondade, por suas ações sempre bem intencionadas com todos. Por onde passava, o jovem anjo recebia elogios: seus sorrisos eram capazes de finalizar grandes e terríveis guerras; seus olhares enchiam de acalanto os pobres corações humanos… Foi numa de suas idas à Terra que Nonniel descobriu a simplicidade dos prazeres mundanos. Imediatamente se encantou com as festas dionisíacas, com as águas claras dos mares infinitos. E desejou pertencer a isso, mesmo sem saber o porquê. Foi até Deus (com uma cara bem séria) e o questionou durante incontáveis horas. Aliás, essa é uma característica marcante do velho espírito: a argumentação. Nonniel, ao fim de seis dias de diálogo com Deus, não entendeu as razões para o céu ser tão careta. Por que não havia violões tocando em grandes nuvens? Por que os oceanos não eram grandes como na Terra? Por que os sonhos não eram utópicos? Ele queria sonhar como os homens. E desceu.

         Enquanto isso, em algum livro de cabeceira, em alguma carta endereçada a um mago, em alguma saudade do século XIX, Mizebeb sofria. Sentia-se despedaçada. Era feliz, é claro. Todavia, como toda princesa que se preze, ela sentia a ervilha a cutucar-lhe a espinha. Ela só não sabia em qual colchão poderia encontrá-la… e vivia a passar noites em claro, atrás de explicações.

         E foi numa noite viniciada que ela o conheceu. Uma festa digna de Dionísio. Havia muita música, muitas cores, muitos prazeres simples naquele espaço entre os crepúsculos. Ela, ainda dissolvendo a traição de si própria, pôs-se a conversar com o ex-anjo. E quantas horas acolheram aquelas palavras familiares! Quantos versos foram trocados em segredo. Um segredo até mesmo deles dois. Nenhum dos dois ousou pensar no outro.  Impediram-se de rumorejar, quando estavam sozinhos em seus quartos, naquela noite. Sublimaram os pensamentos, insistentes e teimosos, que perambulavam por todos os poros dos seus corpos. Não seria possível acreditar no que estava acontecendo…

         A sincronicidade do universo, no entanto, falou mais alto. E já era impossível não deixar pelos chãos grandes suspiros de amor. A conexão era inevitável. Nonniel já nem pensava em seus poderes luminosos, tampouco nos deuses que habitaram por tanto tempo sua existência de eternidade. Mizebeb deixou de estalar suas costas. Procurou por todas as extremidades de seus ossos a dor, que a acompanhava há séculos. Até chegou a esmorecer por ter perdido tão fiel companheira. Mas isto durou apenas um instante: ela já havia encontrado a melhor de todas as companhias.

         E os anos passaram, repletos de paranormalidades. Por fim, os dois entenderam que não pertenciam àquele planeta. E que nada importava mais. Haviam se encontrado em meio a tanta banalidade.

         Mizebeb e Nonniel brigaram muito. Pois é, esta não é uma história de amor rodeada de perfeições. O que é perfeito não pode permear o reino das possibilidades… É bom sentir os goles da realidade, às vezes.

         O anjo e a princesa saborearam muitas, inúmeras vezes as sensações primeiras. As delícias de pertencerem um ao outro. As doçuras telepáticas. A riqueza dos afagos. A pureza das noites quietas. O cheiro da infância de um já podia circular na corrente sangüínea do outro. Protagonizaram, lado a lado, incontáveis ensaios de filhos.  De almas nuas, abrigaram alguns maiores abandonados.

         Certo dia, porém, o Destino os incomodou: seus caminhos haveriam de seguir, apartados. Era a hora de escolher. Um poderia carregar o outro pelos braços? Nonniel era capaz de plantar em Mizebeb seus planos de liberdade? Seria ela hábil o suficiente, a ponto de encontrar um ponto de intersecção?

         Nas profundezas melancólicas dos grandes desencontros, embevecidos de dor, de desespero e confusões, eles emudeceram. Estáticos, viram-se obrigados a decidir. Ele agarrou seu grande futuro, com todas as suas forças, pelos pulsos. Ela esperou ressuscitar seu nódulo dorsal. A ervilha, contudo, estava adormecida para sempre, nos distantes calabouços de Hades.  

         As distâncias cresceram, tocaram o infinito. “A tristeza é uma maneira da gente se salvar depois”, pensou ela. E o esperava nos sonhos, que custavam tanto a vir. As noites, insones, eram mais doloridas que as lembranças de castelo. “Minha carne estava tão acostumada em dividir o leito com as asas do anjo”, lamentava.

         Mas essa é uma história de amor. E mais! É uma história de amor entre um anjo e uma princesa. Claro que dois personagens bem incomuns: um anjo mortal e uma princesa nômade.

         A princesa foi buscar sua morada, finalmente. Sabia que não se tratava de materialidades. “Meu namorado, minha morada é onde for morar você”. Mergulhou, pois, nas entranhas do Velho Mundo. Sentia um pertencimento imediato. Sabia daqueles lugares. Conhecia cada beco, cada saída, cada atalho. Adentraram horizontes dos mais belos. E estavam juntos novamente. O sono vinha, os vícios iam se esquecendo de habitar seu corpo. Precisava simplesmente ouvir uma canção para acalmar os antigos desejos de fumaça. E os sonhos engordavam a cada dia, criavam as formas que ela tanto duvidou. Vieram os filhos, bondosos como o pai. Passionais como a mãe. Vieram os netos. A velhice bateu à porta. Nada disso tinha importância. Um segundo daquele amor que inundava os mundos era capaz de ganhar a imortalidade dos grandes mestres.

 

                                               FIM

 

Pósfacio: a inspiração é mesmo um cavalo incapaz de ser domado. Ela estabelece suas regras, possui os dedos, ocupa o corpo e faz dele o que bem quer. As histórias não são compostas por nenhum autor, mas pela coragem e imponência dessa força, maior que tudo o que há em mim, a não ser o que eu sinto quando pairo sobre a sua idéia, sobre o seu olhar. 

 

 

 

 

 

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