Em Terra Estrangeira

 

 

Há em mim uma inquietude, uma estranheza que minha alma deve carregar há séculos. Um sentimento de ter sido colonizada, de fincarem bandeiras em meu solo sem que eu pudesse interferir. No início, encantada pelo ouro, pelos espelhos e por todas as plumas que me trouxeram, permaneci terrivelmente seduzida. No segundo seguinte queria minha terra de volta, exatamente da forma que era. Infeliz ou felizmente, isso me era impossível. Somos impotentes frente às tempestades.

 

Tenho procurado me recolher o máximo possível para não transformar minhas divagações em arrogância. Já tive fases de simplesmente abominar, rejeitar e ignorar meus colonos. Hoje olho para eles como pessoas que estão à procura de uma casa, de um pertencimento primeiro. Querem deixar de ser nômades. Seus corpos estão cansados e desidratados. A fome invade, inescrupulosamente. Eles também estão inquietos e aflitos. Buscam, regidos pelo desespero, o cheiro de seus cantos, os ângulos das quinas, os segredos perdidos em armários.

 

A grande diferença entre mim e a grande maioria das pessoas que conheço está na impossibilidade de me assentar em qualquer lugar. Sou alguém que perambula pelos livros, repouso minhas idéias, encontro divinos palácios e retomo minha caminhada. Deixo-me ser guiada pelos sussurros dos poetas e desenho meu próprio cômodo ao submergir em um oceano de letras harmoniosas.  Estou em casa.

 

Quando soube da teoria dos Maias terem sido abduzidos, fiquei perplexa. Finalmente vislumbrei uma saída absolutamente (i) lógica para o meu desequilíbrio. Eu habitava um planeta cujos seres não eram semelhantes. Os desbravadores terrestres possuíam forma, finalmente.

 

Decidi, pois, que procuraria os meus irmãos pelo mundo. Com alguns olhares mais intensos, algumas conversas pouco convencionais, provocações, ironias… qualquer coisa que me fizesse identificá-los! “Você viu aquele filme do Truffaut no qual as pessoas alcançam a liberdade ao aprisionarem-se como livros?” Nenhuma ressonância. Cavernas sem eco. 

 

Em minha jornada auscultei muitos silêncios. Fui entendendo que não seria tão fácil desvelar as excêntricas criaturas. Não poderia mais ficar nua pelas ruas, bares e reuniões. Necessitava esperar que eles viessem até mim.

 

Até hoje sinto uma enorme dificuldade em estabelecer contato com os humanos normais. Dói-me – como se tivesse os dedos cortados por uma folha de papel – escutar seus anseios, vontades e paixões. Minhas membranas são rasgadas, dia após dia, quando atendo a seus convites. Todavia, vez em quando, no mar dos domadores exóticos, dou de cara com olhares íntimos. Meu contorno e minha carne sucumbem ao sabor da minha morada. Feridas de papel são impiedosamente cicatrizadas. Agradeço pela regeneração e respeito a marca que deixaram –  são fragmentos inexoráveis de mim. Os exploradores se enfurecem. Pobre deles. Não sabem a diferença entre o aconchego e a hospedagem. Confundem o sentido de sua própria linguagem. Conhecer não é o mesmo que (re) encontrar.

 

 

 

 

 

 

 

 

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