À Procura de um Mágico

 

 

 

 

 

Hoje resolvi ficar a sós com Clarice. Estava cansada demais para repartir minha solidão em conversas vãs. Queria um momento meu e dela, que pudesse conceber uma criança. Uma criança capaz de crescer muito rapidamente. Uma criança que tomasse as formas pelos meus dedos e, em alguns minutos, estivesse pronta para andar pelo mundo.

 

É claro que, tratando-se de Clarice, facilmente se descobre o caminho até a explosão literária. Em pouquíssimos minutos já sabia a cara da criança e sua profissão: ela deveria ser (necessariamente) um Mágico.

 

A mulher doce de olhar misterioso escreveu uma pequena crônica chamada “PRECISA-SE”. A epifania tocou o sangue. Com uma velocidade incrível me sentei na frente do computador.

 

Estou em busca de um Mágico. Ele não precisa ter muita experiência, mas necessita de destreza e agilidade em suas mãos. Um Mágico que saiba truques simples e que possa oferecer alguns instantes de não-realidade às crianças.

 

A figura que veio à minha mente é alguém de alma rodeada de inconsciência. Uma alma que ainda não tenha se dado por terminada. Não saiba sequer se será astronauta ou diplomata, filósofa ou musicista. As almas conscientes são muito arrogantes. Não combinam em nada com a sutileza dos dedos de um Mágico. E qual Mágico não tem a alma deflorada em suas mãos?

 

Outro requisito importantíssimo para a minha satisfação é a capacidade de pensar telepatias. Eu e o Mágico precisamos de um meio de comunicação digno daquilo que ele proporciona nas pessoas. O Mágico e eu temos de ser céleres em nossos encontros. Em meus devaneios não há lugar para vagarosidades.

 

Prometo não me estender muito, como Clarice, nas qualificações que o Mágico deve possuir. Mas algumas são substanciais e não podem ser deixadas para uma primeira entrevista. Não aceitarei magos, duendes ou vaga-lumes. Os magos são por demasiado metidos, os duendes muito pequeninos e os vaga-lumes muito efêmeros. Preciso de uma companhia que me caminhe longas distâncias e que não me irrite com sua sabedoria de séculos. Além disso, sou muito alta e já apresento claros sinais de corcundeza.

 

Por fim, para ser exata em minhas exigências, podem ser candidatos aqueles que possuam muita paciência. Sou instável e ansiosa. Tenho muita dificuldade em esperar as coisas. O Mágico deve usar seus poderes para tranqüilizar minha alma. Ele tem que saber usar a poeira galáctica de sua cartola para transformar minha aflição em riso.

 

Clarice me diz baixinho – neste exato momento cercado da mais pura mágica – que ela só conhece um Mágico capaz de suprir essa lista de exigências enfadonhas. Suplico a ela que me consiga alguns segundos para entrevistá-lo. E ela me responde, na humildade de um caracol: “Ele não é um mágico”. E eu, indignada, quase mando Clarice se calar. Mas, com a sapiência que cabe a uma criança, ela continua: “O homem que você procura é um mímico. Um mímico que mora em Paris”. E o fervor toca meus míopes olhos, enchendo-os de lágrimas: “Mas como irei me encontrar com um mímico que mora em Paris?” E ela responde: “Ele é o único que sabe falar pelo pensamento com você. E, ao invés das mãos dadas, vocês estarão de corações dados”.

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Textos meus

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s