A ladra

 

Outra noite falávamos sobre o rompimento literário em nossas vidas… Nós sempre falamos muito, sem parar. Quantas histórias deixamos de nos contar pela emergência dialogada do outro! Quantos assuntos em suspenso ainda não estão guardados para o resto de nossas vidas? Acho inebriante. O infinito que nos permeia me dá tantas forças e tantas alegrias, tu não podes imaginar. O nunca-tédio de estar com alguém jamais havia habitado minha alma.

Tu me contaste dos teus castigos em letras. Tuas obrigações para com a literatura, desde pequenino. Quantas resenhas não fez em voz alta, meu amor? Quantas palavras tiveram que ser devoradas por ti? Penso que não há penitência mais doce. A leitura como coerção me é a mais deliciosa das punições.

Refleti, à luz de Clarice, como a literatura me foi iniciada. Em qual momento de minha vida me senti convidada a sonhar? Quando foi a primeira vez que estive perplexa, diante do Universo de sentidos?

Lembro-me muito bem das minhas manhãs de sábado. Morávamos na Vila Mariana. Meu pai me acordava bem cedo, antes das oito da manhã. Imagines pensar em acordar tão cedo no sábado? Pois bem, eu acordava feliz. Feliz porque sabia que era o dia de me encontrar com os livros. Íamos a uma livraria, encontrar figuras inusitadas. Eram personagens de livros, feitos de carne e osso. Talvez meu pai seja escritor porque conheceu infinitos personagens em vida real. Talvez não.

Eu tinha direito a um livro por semana. Gostava por demais da coleção Pom-Pom. Eram livros fofos de contos de fada. A coleção me ensinou a história da princesa e da ervilha. Meu pai me transferiu a obsessão pelas livrarias. Algum tempo depois, ganhei um livreto de poesias. Versos simples, quase infantis. Roubei um deles para dedicar ao nascimento da minha irmã. Foi meu primeiro furto literário.

Quando tinha uns doze anos, tive poesia na escola. No início, senti um repúdio. Precisava de distanciamento. Tudo aquilo era muito difícil e profundo. Jamais conseguiria eu, mera copiadora de versos juvenis, conduzir minhas próprias rimas e imagens. Fiquei apavorada. Sempre tive muito medo do desconhecido. Daquilo que não se pode controlar, daquilo que se pode fracassar. Ignorei a poesia. Só por um breve instante.

Devo ter comentado com meus pais sobre as aulas de poesia e sobre minha resistência. Eles devem ter entendido que não passava de vontade de aprender, e de ser a melhor nisso. Foi quando minha mãe chegou com uma pastinha embaixo do braço. Disse a mim: “Filha, isso aqui é um tesouro meu. São meus cadernos de poesia de quando era um pouco mais velha que você. Guarde-o com carinho e respeito. A poesia é algo que merece absoluta intimidade, não se pode deixá-la no mundo sem delicadezas…”

Aqueles cadernos de minha mãe, escondidos até hoje na bagunça do meu quarto, foram incrivelmente surpreendentes. A princípio, senti um constrangimento enorme. As confissões daquela menina eram alma demais. Tive vontade de ser amiga dela e raiva de ser minha mãe.

Decidi, pois, que necessitava aprender a escrever como ela. As rimas, as mensagens, as interrogativas existenciais já não pertenciam mais a ela. Eram minhas! Eram meus pensamentos escritos por outrem! Como poderia ter roubado minhas idéias? Eu nunca havia contado nada a ninguém! Como seria possível?

Foi ai que comecei a ter uma compulsão. Roubava rimas daqueles cadernos, roubava versos, roubava poesias inteiras! Tornei-me uma viciada. Cometi o crime da falsidade ideológica. Possuí uma estranha amizade com aquela menina, quase da minha idade, que era minha mãe. Vicky, o pseudônimo dela, era como uma irmã de letras. Uma ladra dos meus pensamentos mais íntimos e dolorosos. Um estimulante ao furto e à perda da identidade. Um caderno de segredos.

Nunca havia compartilhado essa história antes. Nem quando cavei o porão de mim mesma, em confissões terapêuticas, tive essa coragem. Esses meus crimes só poderiam ser divididos com aquele que me confiasse seus delitos lingüísticos.

Depois dos sábados, da poesia criança e de Vicky, as lembranças ficam um pouco embaçadas. Um pouco vazias. Pena. Não consigo colocar de volta em meu coração o instante em que toquei Pessoa.

O que importa, todavia, é o transbordamento da literatura das minhas veias. Fui escolhida e escolhi, tomada pela ambigüidade do Português. Doçura e enojamento. Pertencida e dolorida ao mesmo tempo. Rebeldia e redenção.

Apesar do abismo desmemoriado, ainda falta um capítulo da minha história com a Literatura: és tu. A tua vinda me trouxe velhos desejos de furto. Despertou-me a ira mortal. Malditos sejam Vinícius, Pablo, Chico, Edu Lobo! Assaltantes dos meus sentimentos mais bonitos… Deveria ser meu esse verso, como puderam extrair de mim?

Ao mesmo tempo, ao pensar em ti, sentia uma estranha e familiar ânsia. Um transbordar de palavras. Calma! Espera! Preciso de caneta, preciso de papel, preciso me lembrar! Como um bebê que não controla seu próprio corpo, eu me dissolvia em poesia por ti.

Amor, inestimável é o valor da nossa musa. Incalculável é a delícia de inspirar versos. A urgência de escrever aniquilou a inveja. Tu me permitiste a fertilidade. Trouxeste até mim o meu poço de devaneios, a minha própria pasta. Onde foi que a encontraste? Como poderia saber que me era propriedade?

E o destino, irônico, está te levando embora. As palavras que tanto amo estão se impondo sobre mim. A minha musa vai atrás de versos mais complexos, de estilos mais primeiros, de línguas mais sonoras, menos ambíguas. “A ausência é um estar em mim”. Disse a ti, naquela outra conversa. Tu rebentaste em mim a amortecida mensagem. Tu despertaste adormecidos textos. Isto me é definitivo, a partir da tua chegada. Por isso posso deixar que encontres novas palavras. Vou atrás das minhas, carregando cá dentro o espírito do melhor presente que já recebi. Deixo para trás meu passado vergonhoso de ladra. Vou, inspirando a tua presença. Já posso expirar minhas próprias palavras.

 

 

 

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