Arquivo do dia: agosto 6, 2008

A ladra

 

Outra noite falávamos sobre o rompimento literário em nossas vidas… Nós sempre falamos muito, sem parar. Quantas histórias deixamos de nos contar pela emergência dialogada do outro! Quantos assuntos em suspenso ainda não estão guardados para o resto de nossas vidas? Acho inebriante. O infinito que nos permeia me dá tantas forças e tantas alegrias, tu não podes imaginar. O nunca-tédio de estar com alguém jamais havia habitado minha alma.

Tu me contaste dos teus castigos em letras. Tuas obrigações para com a literatura, desde pequenino. Quantas resenhas não fez em voz alta, meu amor? Quantas palavras tiveram que ser devoradas por ti? Penso que não há penitência mais doce. A leitura como coerção me é a mais deliciosa das punições.

Refleti, à luz de Clarice, como a literatura me foi iniciada. Em qual momento de minha vida me senti convidada a sonhar? Quando foi a primeira vez que estive perplexa, diante do Universo de sentidos?

Lembro-me muito bem das minhas manhãs de sábado. Morávamos na Vila Mariana. Meu pai me acordava bem cedo, antes das oito da manhã. Imagines pensar em acordar tão cedo no sábado? Pois bem, eu acordava feliz. Feliz porque sabia que era o dia de me encontrar com os livros. Íamos a uma livraria, encontrar figuras inusitadas. Eram personagens de livros, feitos de carne e osso. Talvez meu pai seja escritor porque conheceu infinitos personagens em vida real. Talvez não.

Eu tinha direito a um livro por semana. Gostava por demais da coleção Pom-Pom. Eram livros fofos de contos de fada. A coleção me ensinou a história da princesa e da ervilha. Meu pai me transferiu a obsessão pelas livrarias. Algum tempo depois, ganhei um livreto de poesias. Versos simples, quase infantis. Roubei um deles para dedicar ao nascimento da minha irmã. Foi meu primeiro furto literário.

Quando tinha uns doze anos, tive poesia na escola. No início, senti um repúdio. Precisava de distanciamento. Tudo aquilo era muito difícil e profundo. Jamais conseguiria eu, mera copiadora de versos juvenis, conduzir minhas próprias rimas e imagens. Fiquei apavorada. Sempre tive muito medo do desconhecido. Daquilo que não se pode controlar, daquilo que se pode fracassar. Ignorei a poesia. Só por um breve instante.

Devo ter comentado com meus pais sobre as aulas de poesia e sobre minha resistência. Eles devem ter entendido que não passava de vontade de aprender, e de ser a melhor nisso. Foi quando minha mãe chegou com uma pastinha embaixo do braço. Disse a mim: “Filha, isso aqui é um tesouro meu. São meus cadernos de poesia de quando era um pouco mais velha que você. Guarde-o com carinho e respeito. A poesia é algo que merece absoluta intimidade, não se pode deixá-la no mundo sem delicadezas…”

Aqueles cadernos de minha mãe, escondidos até hoje na bagunça do meu quarto, foram incrivelmente surpreendentes. A princípio, senti um constrangimento enorme. As confissões daquela menina eram alma demais. Tive vontade de ser amiga dela e raiva de ser minha mãe.

Decidi, pois, que necessitava aprender a escrever como ela. As rimas, as mensagens, as interrogativas existenciais já não pertenciam mais a ela. Eram minhas! Eram meus pensamentos escritos por outrem! Como poderia ter roubado minhas idéias? Eu nunca havia contado nada a ninguém! Como seria possível?

Foi ai que comecei a ter uma compulsão. Roubava rimas daqueles cadernos, roubava versos, roubava poesias inteiras! Tornei-me uma viciada. Cometi o crime da falsidade ideológica. Possuí uma estranha amizade com aquela menina, quase da minha idade, que era minha mãe. Vicky, o pseudônimo dela, era como uma irmã de letras. Uma ladra dos meus pensamentos mais íntimos e dolorosos. Um estimulante ao furto e à perda da identidade. Um caderno de segredos.

Nunca havia compartilhado essa história antes. Nem quando cavei o porão de mim mesma, em confissões terapêuticas, tive essa coragem. Esses meus crimes só poderiam ser divididos com aquele que me confiasse seus delitos lingüísticos.

Depois dos sábados, da poesia criança e de Vicky, as lembranças ficam um pouco embaçadas. Um pouco vazias. Pena. Não consigo colocar de volta em meu coração o instante em que toquei Pessoa.

O que importa, todavia, é o transbordamento da literatura das minhas veias. Fui escolhida e escolhi, tomada pela ambigüidade do Português. Doçura e enojamento. Pertencida e dolorida ao mesmo tempo. Rebeldia e redenção.

Apesar do abismo desmemoriado, ainda falta um capítulo da minha história com a Literatura: és tu. A tua vinda me trouxe velhos desejos de furto. Despertou-me a ira mortal. Malditos sejam Vinícius, Pablo, Chico, Edu Lobo! Assaltantes dos meus sentimentos mais bonitos… Deveria ser meu esse verso, como puderam extrair de mim?

Ao mesmo tempo, ao pensar em ti, sentia uma estranha e familiar ânsia. Um transbordar de palavras. Calma! Espera! Preciso de caneta, preciso de papel, preciso me lembrar! Como um bebê que não controla seu próprio corpo, eu me dissolvia em poesia por ti.

Amor, inestimável é o valor da nossa musa. Incalculável é a delícia de inspirar versos. A urgência de escrever aniquilou a inveja. Tu me permitiste a fertilidade. Trouxeste até mim o meu poço de devaneios, a minha própria pasta. Onde foi que a encontraste? Como poderia saber que me era propriedade?

E o destino, irônico, está te levando embora. As palavras que tanto amo estão se impondo sobre mim. A minha musa vai atrás de versos mais complexos, de estilos mais primeiros, de línguas mais sonoras, menos ambíguas. “A ausência é um estar em mim”. Disse a ti, naquela outra conversa. Tu rebentaste em mim a amortecida mensagem. Tu despertaste adormecidos textos. Isto me é definitivo, a partir da tua chegada. Por isso posso deixar que encontres novas palavras. Vou atrás das minhas, carregando cá dentro o espírito do melhor presente que já recebi. Deixo para trás meu passado vergonhoso de ladra. Vou, inspirando a tua presença. Já posso expirar minhas próprias palavras.

 

 

 

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Mizebeb & Nonniel

 lei

 

 

O início desta fábula necessita de uma explicação: ela foi concebida no maior calor dos séculos, a bordo de um carro quase parado. No entanto este fato não é o mais curioso, nem estranho dessa concepção. Sua inspiração veio de um filme piegas, previsível, um verdadeiro plágio cinematográfico! Mas a vida, grandiosa, não deixa que as inspirações morram, nem mesmo com toda a mediocridade terrestre. A poesia guerreia, ultrapassa, atravessa, rompe e rebenta na solidão das grandes mesmices. Ela sempre sabe como burlar as regras e reagir a tudo – afinal de contas, de qual planeta você acha que a poesia veio?

Sem maiores delongas, essa história é (como quase todas o são) uma história de amor. Um amor que desrespeitou ordens divinas. Um amor que uniu um anjo a uma princesa…

         A princesa Mizebeb há muito não governava reino algum. Era uma princesa sem pátria, sem súditos, sem coroa. A única coisa que ela ainda possuía do seu status de realeza eram lindos sonhos de vestido. Nada mais. Nada menos. O reino da princesa fora destruído muitos anos antes, quando ela ainda era uma exímia amazona. Como acontece nas histórias clichês, a princesa foi obrigada a passar por uma provação, que lhe custaria a incapacidade da ignorância. E felizes são aqueles que olham para as coisas, mas não as vêem!

         Num universo quase paralelo, vivia Nonniel. Era um anjo consagrado por sua bondade, por suas ações sempre bem intencionadas com todos. Por onde passava, o jovem anjo recebia elogios: seus sorrisos eram capazes de finalizar grandes e terríveis guerras; seus olhares enchiam de acalanto os pobres corações humanos… Foi numa de suas idas à Terra que Nonniel descobriu a simplicidade dos prazeres mundanos. Imediatamente se encantou com as festas dionisíacas, com as águas claras dos mares infinitos. E desejou pertencer a isso, mesmo sem saber o porquê. Foi até Deus (com uma cara bem séria) e o questionou durante incontáveis horas. Aliás, essa é uma característica marcante do velho espírito: a argumentação. Nonniel, ao fim de seis dias de diálogo com Deus, não entendeu as razões para o céu ser tão careta. Por que não havia violões tocando em grandes nuvens? Por que os oceanos não eram grandes como na Terra? Por que os sonhos não eram utópicos? Ele queria sonhar como os homens. E desceu.

         Enquanto isso, em algum livro de cabeceira, em alguma carta endereçada a um mago, em alguma saudade do século XIX, Mizebeb sofria. Sentia-se despedaçada. Era feliz, é claro. Todavia, como toda princesa que se preze, ela sentia a ervilha a cutucar-lhe a espinha. Ela só não sabia em qual colchão poderia encontrá-la… e vivia a passar noites em claro, atrás de explicações.

         E foi numa noite viniciada que ela o conheceu. Uma festa digna de Dionísio. Havia muita música, muitas cores, muitos prazeres simples naquele espaço entre os crepúsculos. Ela, ainda dissolvendo a traição de si própria, pôs-se a conversar com o ex-anjo. E quantas horas acolheram aquelas palavras familiares! Quantos versos foram trocados em segredo. Um segredo até mesmo deles dois. Nenhum dos dois ousou pensar no outro.  Impediram-se de rumorejar, quando estavam sozinhos em seus quartos, naquela noite. Sublimaram os pensamentos, insistentes e teimosos, que perambulavam por todos os poros dos seus corpos. Não seria possível acreditar no que estava acontecendo…

         A sincronicidade do universo, no entanto, falou mais alto. E já era impossível não deixar pelos chãos grandes suspiros de amor. A conexão era inevitável. Nonniel já nem pensava em seus poderes luminosos, tampouco nos deuses que habitaram por tanto tempo sua existência de eternidade. Mizebeb deixou de estalar suas costas. Procurou por todas as extremidades de seus ossos a dor, que a acompanhava há séculos. Até chegou a esmorecer por ter perdido tão fiel companheira. Mas isto durou apenas um instante: ela já havia encontrado a melhor de todas as companhias.

         E os anos passaram, repletos de paranormalidades. Por fim, os dois entenderam que não pertenciam àquele planeta. E que nada importava mais. Haviam se encontrado em meio a tanta banalidade.

         Mizebeb e Nonniel brigaram muito. Pois é, esta não é uma história de amor rodeada de perfeições. O que é perfeito não pode permear o reino das possibilidades… É bom sentir os goles da realidade, às vezes.

         O anjo e a princesa saborearam muitas, inúmeras vezes as sensações primeiras. As delícias de pertencerem um ao outro. As doçuras telepáticas. A riqueza dos afagos. A pureza das noites quietas. O cheiro da infância de um já podia circular na corrente sangüínea do outro. Protagonizaram, lado a lado, incontáveis ensaios de filhos.  De almas nuas, abrigaram alguns maiores abandonados.

         Certo dia, porém, o Destino os incomodou: seus caminhos haveriam de seguir, apartados. Era a hora de escolher. Um poderia carregar o outro pelos braços? Nonniel era capaz de plantar em Mizebeb seus planos de liberdade? Seria ela hábil o suficiente, a ponto de encontrar um ponto de intersecção?

         Nas profundezas melancólicas dos grandes desencontros, embevecidos de dor, de desespero e confusões, eles emudeceram. Estáticos, viram-se obrigados a decidir. Ele agarrou seu grande futuro, com todas as suas forças, pelos pulsos. Ela esperou ressuscitar seu nódulo dorsal. A ervilha, contudo, estava adormecida para sempre, nos distantes calabouços de Hades.  

         As distâncias cresceram, tocaram o infinito. “A tristeza é uma maneira da gente se salvar depois”, pensou ela. E o esperava nos sonhos, que custavam tanto a vir. As noites, insones, eram mais doloridas que as lembranças de castelo. “Minha carne estava tão acostumada em dividir o leito com as asas do anjo”, lamentava.

         Mas essa é uma história de amor. E mais! É uma história de amor entre um anjo e uma princesa. Claro que dois personagens bem incomuns: um anjo mortal e uma princesa nômade.

         A princesa foi buscar sua morada, finalmente. Sabia que não se tratava de materialidades. “Meu namorado, minha morada é onde for morar você”. Mergulhou, pois, nas entranhas do Velho Mundo. Sentia um pertencimento imediato. Sabia daqueles lugares. Conhecia cada beco, cada saída, cada atalho. Adentraram horizontes dos mais belos. E estavam juntos novamente. O sono vinha, os vícios iam se esquecendo de habitar seu corpo. Precisava simplesmente ouvir uma canção para acalmar os antigos desejos de fumaça. E os sonhos engordavam a cada dia, criavam as formas que ela tanto duvidou. Vieram os filhos, bondosos como o pai. Passionais como a mãe. Vieram os netos. A velhice bateu à porta. Nada disso tinha importância. Um segundo daquele amor que inundava os mundos era capaz de ganhar a imortalidade dos grandes mestres.

 

                                               FIM

 

Pósfacio: a inspiração é mesmo um cavalo incapaz de ser domado. Ela estabelece suas regras, possui os dedos, ocupa o corpo e faz dele o que bem quer. As histórias não são compostas por nenhum autor, mas pela coragem e imponência dessa força, maior que tudo o que há em mim, a não ser o que eu sinto quando pairo sobre a sua idéia, sobre o seu olhar. 

 

 

 

 

 

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Em Terra Estrangeira

 

 

Há em mim uma inquietude, uma estranheza que minha alma deve carregar há séculos. Um sentimento de ter sido colonizada, de fincarem bandeiras em meu solo sem que eu pudesse interferir. No início, encantada pelo ouro, pelos espelhos e por todas as plumas que me trouxeram, permaneci terrivelmente seduzida. No segundo seguinte queria minha terra de volta, exatamente da forma que era. Infeliz ou felizmente, isso me era impossível. Somos impotentes frente às tempestades.

 

Tenho procurado me recolher o máximo possível para não transformar minhas divagações em arrogância. Já tive fases de simplesmente abominar, rejeitar e ignorar meus colonos. Hoje olho para eles como pessoas que estão à procura de uma casa, de um pertencimento primeiro. Querem deixar de ser nômades. Seus corpos estão cansados e desidratados. A fome invade, inescrupulosamente. Eles também estão inquietos e aflitos. Buscam, regidos pelo desespero, o cheiro de seus cantos, os ângulos das quinas, os segredos perdidos em armários.

 

A grande diferença entre mim e a grande maioria das pessoas que conheço está na impossibilidade de me assentar em qualquer lugar. Sou alguém que perambula pelos livros, repouso minhas idéias, encontro divinos palácios e retomo minha caminhada. Deixo-me ser guiada pelos sussurros dos poetas e desenho meu próprio cômodo ao submergir em um oceano de letras harmoniosas.  Estou em casa.

 

Quando soube da teoria dos Maias terem sido abduzidos, fiquei perplexa. Finalmente vislumbrei uma saída absolutamente (i) lógica para o meu desequilíbrio. Eu habitava um planeta cujos seres não eram semelhantes. Os desbravadores terrestres possuíam forma, finalmente.

 

Decidi, pois, que procuraria os meus irmãos pelo mundo. Com alguns olhares mais intensos, algumas conversas pouco convencionais, provocações, ironias… qualquer coisa que me fizesse identificá-los! “Você viu aquele filme do Truffaut no qual as pessoas alcançam a liberdade ao aprisionarem-se como livros?” Nenhuma ressonância. Cavernas sem eco. 

 

Em minha jornada auscultei muitos silêncios. Fui entendendo que não seria tão fácil desvelar as excêntricas criaturas. Não poderia mais ficar nua pelas ruas, bares e reuniões. Necessitava esperar que eles viessem até mim.

 

Até hoje sinto uma enorme dificuldade em estabelecer contato com os humanos normais. Dói-me – como se tivesse os dedos cortados por uma folha de papel – escutar seus anseios, vontades e paixões. Minhas membranas são rasgadas, dia após dia, quando atendo a seus convites. Todavia, vez em quando, no mar dos domadores exóticos, dou de cara com olhares íntimos. Meu contorno e minha carne sucumbem ao sabor da minha morada. Feridas de papel são impiedosamente cicatrizadas. Agradeço pela regeneração e respeito a marca que deixaram –  são fragmentos inexoráveis de mim. Os exploradores se enfurecem. Pobre deles. Não sabem a diferença entre o aconchego e a hospedagem. Confundem o sentido de sua própria linguagem. Conhecer não é o mesmo que (re) encontrar.

 

 

 

 

 

 

 

 

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À Procura de um Mágico

 

 

 

 

 

Hoje resolvi ficar a sós com Clarice. Estava cansada demais para repartir minha solidão em conversas vãs. Queria um momento meu e dela, que pudesse conceber uma criança. Uma criança capaz de crescer muito rapidamente. Uma criança que tomasse as formas pelos meus dedos e, em alguns minutos, estivesse pronta para andar pelo mundo.

 

É claro que, tratando-se de Clarice, facilmente se descobre o caminho até a explosão literária. Em pouquíssimos minutos já sabia a cara da criança e sua profissão: ela deveria ser (necessariamente) um Mágico.

 

A mulher doce de olhar misterioso escreveu uma pequena crônica chamada “PRECISA-SE”. A epifania tocou o sangue. Com uma velocidade incrível me sentei na frente do computador.

 

Estou em busca de um Mágico. Ele não precisa ter muita experiência, mas necessita de destreza e agilidade em suas mãos. Um Mágico que saiba truques simples e que possa oferecer alguns instantes de não-realidade às crianças.

 

A figura que veio à minha mente é alguém de alma rodeada de inconsciência. Uma alma que ainda não tenha se dado por terminada. Não saiba sequer se será astronauta ou diplomata, filósofa ou musicista. As almas conscientes são muito arrogantes. Não combinam em nada com a sutileza dos dedos de um Mágico. E qual Mágico não tem a alma deflorada em suas mãos?

 

Outro requisito importantíssimo para a minha satisfação é a capacidade de pensar telepatias. Eu e o Mágico precisamos de um meio de comunicação digno daquilo que ele proporciona nas pessoas. O Mágico e eu temos de ser céleres em nossos encontros. Em meus devaneios não há lugar para vagarosidades.

 

Prometo não me estender muito, como Clarice, nas qualificações que o Mágico deve possuir. Mas algumas são substanciais e não podem ser deixadas para uma primeira entrevista. Não aceitarei magos, duendes ou vaga-lumes. Os magos são por demasiado metidos, os duendes muito pequeninos e os vaga-lumes muito efêmeros. Preciso de uma companhia que me caminhe longas distâncias e que não me irrite com sua sabedoria de séculos. Além disso, sou muito alta e já apresento claros sinais de corcundeza.

 

Por fim, para ser exata em minhas exigências, podem ser candidatos aqueles que possuam muita paciência. Sou instável e ansiosa. Tenho muita dificuldade em esperar as coisas. O Mágico deve usar seus poderes para tranqüilizar minha alma. Ele tem que saber usar a poeira galáctica de sua cartola para transformar minha aflição em riso.

 

Clarice me diz baixinho – neste exato momento cercado da mais pura mágica – que ela só conhece um Mágico capaz de suprir essa lista de exigências enfadonhas. Suplico a ela que me consiga alguns segundos para entrevistá-lo. E ela me responde, na humildade de um caracol: “Ele não é um mágico”. E eu, indignada, quase mando Clarice se calar. Mas, com a sapiência que cabe a uma criança, ela continua: “O homem que você procura é um mímico. Um mímico que mora em Paris”. E o fervor toca meus míopes olhos, enchendo-os de lágrimas: “Mas como irei me encontrar com um mímico que mora em Paris?” E ela responde: “Ele é o único que sabe falar pelo pensamento com você. E, ao invés das mãos dadas, vocês estarão de corações dados”.

 

 

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